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Coluna de Jobson de Paiva Sales: Hoje não é jornada

Jobson de Paiva Sales. Publicado em 25 de março de 2019 às 18:35

Hoje não é jornada*

(* da expressão italiana “oggi non è giornata” a significar um dia ou período muito difícil).

“Migrar: mover-se de uma região para outra, sair em busca do sonho, da prosperidade, de alternativas ou, na falta de todos eles, partir. O migrante é necessariamente alguém partido: uma vida permanece em sua origem, outra se lança num novo destino, incompleta. Nesse movimento, homem e destino se constroem continuamente, reelaborando práticas, afetos e identidades.”

Exposição Migrar: experiências, memórias e identidades. Museu da Imigração do Estado de São Paulo. 2019.

 

De onde vem? Por que veio? E quando volta?

Um dia não estamos mais juntos, não habitamos mais com os nossos, partimos em busca de sonhos ou a fugir de pesadelos. Nossas raízes já não estão onde estamos, pois a história humana é a história das migrações do homem.

O solo sob você é provavelmente diverso daquele de sua infância. Ou senão diverso daquele que repousava sobre os pés dos seus pais ou avós no início de suas caminhadas. Seus filhos podem neste instante já experimentar a empresa que é viver distante.

Desde a gênese o homo sapiens partiu para sua jornada pela conquista dos continentes. A antropologia atesta que nosso continente foi o último lugar em que chegaram. O homem já habitava a Oceania antes de caminhar aqui.

No censo 2010 no Brasil 35,4% da população não residia no lugar onde nasceu. 10,1 milhões trabalhavam fora do lugar onde moravam e cerca de 5 milhões de brasileiros estudavam fora das cidades onde moravam. Ou seja, cerca de 81 milhões de brasileiros conviviam diretamente com o distanciamento dos seus lares de origem.

Temos entre nós cerca de 30 milhões de descendentes de italianos (metade dos descendentes italianos no mundo segundo o Rapporto Italiani nel mondo, Fondazione Migrantes). O alemão é o segundo idioma mais falado no Brasil. Hoje celebrados esses imigrantes estrangeiros no Brasil já foram alvo de ojeriza e mesmo políticas de aculturação como no Estado Novo de Vargas. Hostilidade da qual não estão salvos nossos imigrantes internos (nordestinos no sudeste, por exemplo).

No mundo cerca de 258 milhões de pessoas vivem num país diferente de sua pátria de origem.

O ato de viajar porta ao viajante o desprendimento material necessário a saber viver somente com o necessário e aquilo que se pode carregar. As posses, tão estimadas por nós sedentários, são o estorvo do viajante/migrante, representam âncora a impedir ou dificultar a experiência, imobilizado que imobiliza. O migrante, por necessidade de sua condição, não somente por altruísmo, em regra porta desprendimento, compaixão, disponibilidade e solicitude, entrega-os também porque deles necessita. Assim como crianças com lares disruptivos que aprendem a desenvolver por instinto maior carisma e simpatia como requisitos de sobrevivência (dependem muitas vezes de não parentes para viver) o ato de viajar, seja em migração ou não, catalisará tais mecanismos por impor aos sujeitos situações imprevistas e complexas que demandam habilidade e empatia ou sucumbirão. Os que viajam ou migram tem de ser mais resilientes, adaptáveis e desprendidos ou a vida, com o valor que habitualmente damos as posses, se tornaria insuportável.

A narrativa do “Estado Nacional”, uma das preferenciais quando se deseja instilar ódio e criar muros, se foi vital a permitir progresso por meio da colaboração de muitos aglomerados humanos em torno de uma ideia, é também a escusa que emoldurou as psicopatias responsáveis pelos maiores massacres ordenados dos últimos dois séculos e vários atentados particulares nas últimas décadas.

Os massacres da Nova Zelândia há alguns dias e da Noruega há oito anos, foram atos de repulsa aos diversos, monstruosidades que rejeitam a diversidade e que tem como esteio o mito do “Estado Nacional”, da pátria que deve permanecer “pura”.

De outra parte países com elevada senescência populacional locupletam-se de forma utilitária dos migrantes para os trabalhos que os nacionais não se permitem fazer, abrandando o peso do envelhecimento populacional endógeno e assim suprem seus mecanismos de arrecadação securitária social (Canadá, Suécia, Alemanha e Islândia são exemplos).

A intransigência face à diversidade foi capaz de ceifar incontáveis vidas ao longo da história por meio da inquisição católica, de regimes políticos autoritários (tanto à direita quanto à esquerda) e de massacres xenofóbicos como o de Christ Church. Não deixa de ser adicionalmente absurdo que o bárbaro do massacre neozelandês contra muçulmanos, cometido em nome da “pureza” nacionalista, era ele também um andarilho, migrante australiano, que cego em sua ojeriza atroz não enxergara o germe de sua própria contradição.

Julgamentos de indivíduos com fulcro em sua origem raramente dizem algo relevante sobre os julgados, mas dizem bastante sobre os julgadores. Antes de externarem possíveis limitações do migrante externam indubitavelmente as máculas do julgador: seus preconceitos, medos e anseios, inabilidades ou oportunismos.

Seja como refugiados ou migrantes econômicos, viver onde não se nasceu denotará quase sempre bastante coragem. Não se escolhe onde nascer, mas isto não deve impedir a ninguém o direito de renascer em outro lugar.

Ao invés de cimentarmos o muro cultural com o questionamento “quando volta?” melhor seria “por que não ficas?”. Afinal o lar, por nós tão estimado e por eles deixado para trás, pode ir além do teto, chão e paredes para se reelaborar como um vínculo de afeto.

Dr Oswaldo e Frannielys. O ex juiz federal venezuelano teve o carro incendiado e o filho mais velho assassinado pelo regime de Nicolás Maduro. Refugiou-se em Boa Vista, Roraima, junto com sua filha caçula. Ganham a vida tocando arpa e viola nos semáforos de Boa Vista.

Dr. Oswaldo e Frannielys. O ex-juiz federal venezuelano teve o carro incendiado e o filho mais velho assassinado pelo regime de Nicolás Maduro. Refugiou-se em Boa Vista, Roraima, junto com sua filha caçula. Ganham a vida tocando arpa e viola nos semáforos de Boa Vista.

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Jobson de Paiva Sales

Mestre em Gestão de Sistemas de Seguridade Social, Madri, Espanha. Gerente Executivo do INSS em Campina Grande. Articulista. Consultor e Palestrante.

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