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Coluna de Estevam Fernandes: Limpando as Gavetas

Estevam Fernandes. Publicado em 2 de fevereiro de 2020 às 19:20

Ao longo da nossa vida acumulamos muitas experiências. São elas que organizam os conteúdos da nossa existência. Na verdade, são as experiências que nos ensinam a viver. Algumas delas são benéficas, é bom lembrá-las; outras, no entanto, trazem as marcas da dor e por isso mesmo tentamos esquecê-las. Mas, como apagar da memória aquilo que já está enraizado dentro de nós?

Ocorre que nós não fomos programados para esquecer. Temos memória viva. Acumulamos não somente experiências, lembranças também. Todos possuímos um arquivo mental aonde vão sendo armazenadas todas as lembranças de fatos, pessoas, sentimentos e lugares que fizeram (e ainda fazem) parte da história da nossa vida.

Algumas coisas – especialmente aquelas que gostaríamos de esquecer – ficam guardadas dentro de nós, nas entranhas do nosso ser, e vivemos a ilusão de que nunca mais serão lembradas. É uma grande ilusão. Elas ficam guardadas, em gavetas especiais, dentro da alma.

É difícil conviver com as lembranças amargas. Difícil e doloroso também. No esforço para esquecê-las nós as escondemos em nosso inconsciente. Ficam ali, a sete chaves, os sentimentos que precisamos negar, as pessoas que nos fizeram sofrer, as culpas que não queremos carregar e as lembranças traumáticas de nossas experiências negativas.

Engavetar tanto veneno é tão perigoso quanto inútil. É como tentar encobrir a ferrugem sob o manto vermelho do zarcão. O ferro vai sendo consumido aos poucos, silenciosamente, e quando sucumbir, levará consigo toda a estrutura de sustentação.

Infelizmente, muitas pessoas vivem morrendo aos poucos, consumidas por sentimentos e lembranças altamente destrutivas. São vidas corroídas pelos efeitos danosos de muito lixo emocional, escondido nas gavetas do inconsciente.

São existências presas às ferragens do passado, impedidas de viver a experiência da liberdade. Pessoas assim necessitam de cura interior, pois são almas aprisionadas dentre de si mesmas, sufocadas pela uma dor que nunca conseguiram superar.  

Dificilmente sabemos lidar de maneira positiva com a raiva, os ressentimentos, as revoltas e as mágoas que surgiram em momentos difíceis da nossa vida. Estes sentimentos são danosos e resistentes, e são mais fortes do que a nossa capacidade de superação.

O que fazemos então? Trancamos, um a um, dentro de nós e vivemos na ilusão de que nos livramos deles. Geralmente esse é o caminho mais fácil. Grande engano! Na verdade, a alma fica minada de explosivos, como bomba de efeito retardado. 

Tal qual fazemos com alguns sentimentos, agimos também com algumas pessoas, com as quais não queremos mais conviver. Estas pessoas nos fizeram muito mal. Feriram nossa dignidade, traíram nossa confiança, interromperam nossa felicidade. Como não é possível nos livrarmos delas em vida, declaramos, então, que estão mortas para nós.

Mas elas estão por aí, nas rotinas do nosso cotidiano. Enterrá-las dentro de nós é apenas uma maneira de ressuscitá-las de vez em quando. Lembranças engavetadas não são lembranças mortas. Estão apenas adormecidas.

É preciso limpar todas as gavetas da alma. Fazer uma faxina interior e retirar tudo que adoece a nossa existência. Livrar a alma de todos os fantasmas que a perturbam, de todas as correntes que a aprisionam, e de todos os medos que a paralisam. Isso é uma decisão pessoal. Intransferível. Urgente.

O melhor detergente purificador da alma é o perdão. Ele é poderoso em sua eficácia. A chave que abre as gavetas da alma para retirar o lixo do passado é a nossa vontade. Somos nós que tomamos esta decisão. A força que nos faz abrir estas gavetas é a graça de Deus em nossa vida. Deus é a força da nossa vitória. Ele nos quer limpos por dentro.

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Estevam Fernandes

Sociólogo, filósofo e pastor da 1ª Igreja Batista de João Pessoa.

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