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Coluna de Elizabeth Marinheiro: Tessituras

Elizabeth Marinheiro. Publicado em 18 de maio de 2019 às 13:45

A produção literária de Hildeberto Barbosa Filho(HBF) é vastíssima. Dialogando com todos os gêneros, o “mago” surge agora com “As palavras me escrevem”.

Acho difícil escrever sobre HBF porque quase tudo já foi dito sobre sua Literatura. Literatura-crônica, literatura-ensaio, literatura-poesia.

Mas, admitir que “as palavras me escrevem” é uma “mentirinha” de magos… Desde Bachelard e Durand, o exaustivo primado do imaginário prova que a “imagem só pode ser compreendida pela imagem”. Nesta encruzilhada, habita o sujeito criador flutuando por várias constelações.

Certo é que a lógica constelacional faz do poema uma “planicie, / pastoral de estrelas”(p.15). E são tantas as iluminações que os textos chamam Tanatos: “escrever é morrer aos pouquinhos/lentamente…/ para ressuscitar nas palavras”(p. 25); convocam Eros: “Adormeço / na madrugada dos teus seios, / vítima das vertigens / do repouso.”(p. 54), favorecendo o tom encantatório da semãntica poética.

Em sendo uma simbíose de múltiplas vozes, não posso deixar de entrever o alter-ego que, in praesentia ou in absentia, desvela-se nos volte-face hildebertianos próprios do jogo literário. Quero dizer que a pessoa interposta pelo imaginário tanto partilha com o destinatário(“Venham, meus amigos, / naufragar nessas ondas / que não têm volta.”)(p.44), quanto adota paratextos que negam “influências” e afirmam afluências em homenagem aos seus idolos literários.

Joco-sérios e/ou existenciais, os paratextos presentificam-se em “Nesta mesa”(p.17); “Meu compadre manuel disse”(p.25); “Joan Baez,”(p.37); “Descobri tudo:” (p. 40); “Quem parte”(p. 41); “No campo de batalha” (p.47); “Adormeço”(p. 54); “Quando me for”(p.47) etc.

Quer seja Chico Buarque ou Dante; Bandeira ou Eliot; uma canção popular ou Bilac, tais afluências, mesmo periféricas, urdem claustrofobia e agorafobia do sujeito e a pluri-espacialidade da obra, onde os elementos joca-sérios e existênciais apresentam-se interligados, confirmando o lirismo-evasão (“Viajo na leveza / das nuvens.”)(p.45); lirismo-errãncia(“Partir para lugar nenhum / ou desaparecer em qualquer / lugar.”)(p. 32); lirismo-existencial(“Descobri tudo . / Deus é uma falha / dentro de mim.”)(p. 40).

Ao contrário o Marco Polo calvinense, o narrador de HBF conhece e ama suas geografias: “Morrer em Monmartre”; “Comarca”; “Cabedelo”; o “Alto de Guia”; “Lulinha” são exemplos pertinentes.

Torna-se evidente que não se tem uma narrativa cosmopolita e sim um locus transitório. Posso até admitir uma transitoriedade permanente na transculturalidade de “As palavras me escrevem”, até porque os vetores apontados acima estão na superfície da linguagem.

Agônico ou melancólico Adjetivo ou substantivo. Dépaysé ou maldito, o autor não desceu aos infernos para repetir, como Sousândrade, “Oqni sp’ranza laciate./Che entrate…”

Encanto e espanto percorrem os poemas, metonimizando uma escrita ensaística que funciona qual “nourriture” para o paladar. É nessa indecisão do sujeito que encontro o autêntico Crítico escondido nos textos sem prejudicar a unidade da obra.

A convergência dos vetores livra-me de apontar a sobredeterminante de “As palavras me escrevem”. Até mesmo a ausência do fácil e o questionamento contínuo das palavras, libertando-as dos estereótipos, não me levam a pensar no encontro consigo mesmo e sim um certo desencontro com o mundo.

Entendo que Merquior tem razão ao afirmar que é preciso “descobrir as várias conexões entre o abandono da poética do ego e as novas feições do discurso lírico” (in Fantasma Romantico. Petrópolis, Vozes, 1980. p. 50).

Minhas anotações lembram-me o Mestre Roland Barthes quando, em curso que fiz em Paris, afirmava que a Escritura não era uma destinação e sim um valor-trabalho e/ou um valor-gênio(estes conceitos aparecem em “O grau zero da escritura”).

Os dois excelentes Críticos parecem encontrar-se neste poema:

Quem habita o poema

perde-se na geografia.

Não exsitem fronteiras

no reino das palavras.

No reino das palavras

são múltiplos os acidentes.

Lugares não têm, ponto fixo,

o tempo se dilata

e todo princípio é incerteza” (HBF, p. 31)

No antiuniverso de Hildeberto não encontro a “poética do ego” e sim o “valor-trabalho”. Trabalho cujo “cimento fundacional” é a “incerteza” de uma viagem insolucionada. E a mão que escreveu é a voz que narrou…

Parabéns, Mago!

E ao meu leitor, bons livros.

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