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Coluna de Elizabeth Marinheiro: Tessituras

Elizabeth Marinheiro. Publicado em 30 de março de 2019 às 16:16

“O poeta municipal

discute com o poeta estadual

qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal

tira ouro do nariz”. C. D. de ANDRADE (in “Política literária”).

Este texto acolhe inúmeras conotações. Desejo, porém, revisitá-lo, conduzindo-o para os dias atuais do Brasil.

Há um “repeteco” nas televisões e entre os políticos da “velha guarda” em torno das tragédias humanas mais recentes. É um moído nocivo dos políticos federais versos autoridades estaduais e municipais. Não sei qual deles vai tirar o “ouro” do nariz ou devolver os $$$ dos bolsos… Talvez pretendam a “invenção da roda”… Quanta vergonha!

Nada mais desventuroso que os massacres de Minas Gerais, São Paulo, Paraíba, Campina Grande etc etc etc. A desventura remete também para os sem casa, os sem roupas, os sem tudo; trágica situação dessas Comunidades. Remendos públicos, esmolas, retóricas “encomendadas” nos veículos de comunicação me parecem uma disputa pelo “ouro”.

Mas, porém, todavia, a primeira visão das maquinações minerais de Brumadinho está – há décadas – na obra drumondiana. Com sua percepção totalizante do mundo, o gênio itabirense revelou que o projeto Cauê, plantado pelos interesses malignos da Campanhia Vale do Rio Doce, persistiram ao longo do tempo, em troca de favores: assim como “ZICO TANAJURA”, “vendeu a Mr. Jones”, “terra só de ferro, aridez/que verde não consola.” (in “Velhaco/Boitempo” com grifos meus), os proprietários da Vale se alimentam da ganância dos políticos e das vantagens nas eleições do “toma lá, dá cá”…

A corrosiva ironia do poeta presentifica-se, igualmente, em “Desfile”, onde ilusões e propaganda enganosa estão implicitas nos versos:

“…Como remédio entornado

em carniça doente;

como dedo na penugem

de braço de namorada;

como vento no cabelo,

fluindo: fiquei mais moço.

Já não tenho cicatriz

Vejo-me noutra cidade” (in “A Rosa do Povo”).

Percebo, por aqui, uma ligeira semelhança com os tratamentos – “médicos” do “espírita” João de Deus e das clínicas clandestinas, onde mulheres ficam noutros espelhos porque retiraram suas “cicatrizes”. Sem dúvida, não pisarão mais em “estercorário” e comparecerão às festas dos cronistas com vestígios de espectros.

A temática siderúrgica, ou seja, o jogo dos poderosos varguistas e anglo-americanos é recorrente em inúmeros poemas de Drummond. De acordo com Barthes, o traço biográfico em Proust teria sido a morte da mãe; morte que o levaria a variadas dicções poéticas.

Com o itabirano, a morte de mãe, eu meu perceber, não abriu portas para a pluralidade de sua poética. Ao lado do tom profético, a natureza instaura melancolia: “Orelhas móveis de cavalo/ e força de elefante. / Estraçalha cachorros, / derruba caçador e árvores, / com estrondalhão/ e deixa-se prender/ no laço à flor do rio”. (in “Anta”, Menino Antigo, p. 550 – grifos meus).

Ao lado do registros autobiográficos, um dos avatares do Poeta (“Alguns anos vivi em Itabira/ Principalmente nasci em Itabira” (grifo meu), a cidade é frequentemente, uma reflexão social: o cotidiano, os casebres, as favelas, praias cariocas dos potentados etc denotam, igualmente, a dor existencial: “Trabalhas” sem alegria para um mundo caduco,/ onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo. / Praticas laboriosamente os gestos universais,/ sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual (in “Elegia 1938” – grigo meu).

Em “Elegia Carioca”, enfatizo sua cidade guanabarina:

“…O Café Belas Artes onde está?

E as francesas do bar do Palace Hotel

e os olhos de vermute que as despiam

no crepuscúlo ouro-lilás de 34”

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“Marco encontros que não se realizam

na abolida José Olympio de Ouvidor

Ficou, é certo, a espelharia da Colombo

mas tenho que tomar café em pé

e só Ary preserva os ritos

da descuidada prosa companheira”

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“Ser um contigo, ó cidade

é premio ou pena? Já nem sei

se te pranteio ou te agradeço

por este jantar de luz que me ofereces

e a ácida sobremesa de problemas

que comigo repartes

no incessante fazer-se, desfazer-se

que um Rio novo molda a cada instante

e a cada instante mata

um Rio amantiamado há 40 anos.” (“Discurso da Primavera”, p. 764)

Realmente, não sublinhei o irônico protesto social do poema. Tentei, apenas, sentir, com Drummond, a destuição das cidades e sua/ nossa angústia existencial.

Esta escrita é pouca em relação ao caráter de um itabirano que soube unir o passado e o comtemporâneo. E até porque sua obra requer outros estudos. Voltarei ao Drummond.

Ao prenunciar a catástrofe do Brumadinho, ele não só denunciou o imperialismo internacional como o processo crescente da corrosão nacional. Sem dúvida, um adivinho que permanece.

Espiritualista. Autocrítico. Liríco. Memorialista. Contestador independente. Histórico. Épico.

Carlos Drummond de Andrade: ÚNICO!

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