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Coluna de Dom Genival Saraiva: Realidade em mudança

Dom Genival Saraiva. Publicado em 17 de setembro de 2019 às 10:31

As pessoas enxergam a realidade ao seu redor e se posicionam de conformidade com sua leitura. A rapidez das mudanças e a velocidade das informações constituem um desafio para um posicionamento pertinente, objetivo, em qualquer área do saber, campo de atividade e forma de vida. Não é uma decisão simples, fácil, uma vez que muitas dessas mudanças dizem respeito a valores importantes para a vida humana, para a instituição familiar e para o mundo. Durante séculos, era inquestionável o reconhecimento da existência de valores, como a família, a religião, a natureza; por serem vividos e respeitados, eram transmitidos às gerações. Na verdade, esses valores subsistem; muda, sim, a forma de leitura dessa realidade, em decorrência de outros fatores que contribuem para uma mudança que começa pela mentalidade, pelo modo de compreender e, consequentemente, de viver.

Em razão desse fenômeno, constata-se uma verdadeira crise de identidade por parte de pessoas que foram protagonistas de situações que, hoje, são desconsideradas, por já não se situarem no plano das prioridades, das necessidades. Sob esse aspecto, em tempos não muito distantes, era visível, por exemplo, a distinção entre o perfil da população urbana e rural. Obviamente, muitos traços ainda são visíveis, no tocante às condições de vida das pessoas e à qualidade das políticas públicas. Todavia, já não se pode afirmar que pessoas do mundo rural sejam menos informadas do que aquelas que habitam na cidade. A esse respeito, escreve o Documento de Aparecida: “Essa mentalidade urbana se estende também ao meio rural”. Sem dúvida, a qualidade do acesso à informação pode ser diferente, limitada, contribuindo, assim, para uma compreensão da realidade em nível diferente.

As atuais Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil contemplam, de modo especial, a realidade do mundo urbano, onde as mudanças acontecem de forma acelerada. “O cenário atual é ambíguo, marcado por luzes e sombras. Entre outras características, pela emancipação do sujeito, a pluralidade, o avanço de novas tecnologias que permitem cuidar melhor da vida, entre outros. Constata-se, por outro lado, a globalização, pelo secularismo, pelo relativismo, pela liquidez, pelo indiferentismo. Neste contexto, a Igreja enfrenta um desafio que está diretamente relacionado com a sua missão: a transmissão integral da fé no interior de uma cultura, em rápidas e profundas transformações, que experimenta forte crise ética com a relativização do sentido do pecado”.

A realidade urbana é reconhecidamente complexa, conforme o perfil de cidade de pequeno, médio e grande porte. “As cidades existem há muito tempo. São construídas a partir do encontro de estruturas físicas com as relações humanas e sociais. Não se pode, porém, cair na generalização de achar que todas as cidades sejam iguais, independentemente de sua história e sua localização. Em nossos dias, quanto maiores são elas, menor é a influência das instituições e da tradição sobre os indivíduos. {…} São cidades diferentes das de outras épocas, exigindo, portanto, que a ação evangelizadora leve em conta sua complexidade”.

O paroquiato em qualquer cidade faz a constatação dessa realidade em mudança. É muito comum párocos e animadores pastorais considerarem população de sua Paróquia o número de habitantes levantado pelo IBGE para a cidade ou para um bairro. Nessa leitura há um grande equívoco, um erro, porque nessa população estão compreendidas pessoas que pertencem a outras igrejas, pessoas indiferentes, católicos não praticantes. Mesmo quando, na estatística, é identificado o número de católicos, a Paróquia não vai ao seu alcance, por não ter assimilado a pastoral da “Igreja em saída”, apontada pelo Papa Francisco como forma de evangelização. Na expressão do Documento de Aparecida, é preciso “que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”. Na compreensão das Diretrizes da CNBB, deve-se “Passar da Igreja do vir para a Igreja do ir”.

Num olhar cristão, as pessoas de todas as gerações não podem deixar de fazer uma leitura objetiva da realidade em mudança, considerando as balizas referenciais da ética, da fé, da cidadania.

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*Administrador Apostólico da Arquidiocese da Paraíba

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