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Política: virtudes e vícios

Dom Genival Saraiva. Publicado em 30 de dezembro de 2018 às 7:49

O início de um Novo Ano tem uma significação especial para o indivíduo, para a família, para a comunidade, para uma nação e para o conjunto das nações. Ao abrirem-se “as cortinas” do Novo Ano, todos se colocam diante de muitos cenários, visíveis com as múltiplas lentes da imaginação, enxergados, objetivamente, com o olhar da realidade ou desfocados pelo quadro das incertezas. Assim, de uma forma ou de outra, o Novo Ano sempre proporciona uma leitura diversificada, de conformidade com o estado de espírito, a história vivida e as expectativas das pessoas. Tendo-se presente o horizonte ou já diante da mudança da página do calendário do ano velho para o ano novo, uma face a contemplar-se é a que diz respeito à população, à coletividade, à comunidade, ao bem comum. É nessa perspectiva que o Novo Ano deve diferenciar-se dos anteriormente vividos. Daí, a necessidade de compreender-se a dimensão política da existência humana, precisamente, porque a “Polis” é o lugar onde estão as pessoas, os cidadãos, que vivem e convivem, de forma responsavelmente solidária, construindo um ambiente de justiça e paz.

Por essa razão, desde o Pontificado de São Paulo VI, no dia 1º de janeiro, é celebrado o Dia Mundial da Paz. A Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2019, escrita pelo Papa Francisco, tem este tema: “A boa política está ao serviço da paz.” O Papa Francisco explicita essas faces da política ao se referir a virtudes e vícios da política. Ao tratar da “Caridade e virtudes humanas para uma política ao serviço dos direitos humanos e da paz”, destaca algumas virtudes da política, ao citar o Papa Bento XVI: “Quando o empenho pelo bem comum é animado pela caridade, tem uma valência superior à do empenho simplesmente secular e político. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana’.(…) Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade.” Ao se referir aos vícios da política, escreve: “A par das virtudes, não faltam infelizmente os vícios, mesmo na política, devidos quer à inércia pessoal quer às distorções no meio ambiente e nas instituições. Para todos, está claro que os vícios da vida política tiram credibilidade aos sistemas dentro dos quais ela se realiza, bem como à autoridade, às decisões e à ação das pessoas que se lhe dedicam. Estes vícios, que enfraquecem o ideal duma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social: a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da ‘razão de Estado’, a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio.”

Por muitas razões, nenhuma pessoa, nenhum cidadão e nenhum grupo social podem ficar indiferentes diante da política, em sua realidade municipal, estadual e federal. A atitude pertinente é apontada pelo Papa: “Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos. Torna-se uma confiança dinâmica, que significa ‘fio-me de ti e creio contigo’ na possibilidade de trabalharmos juntos pelo bem comum. Por isso, a política é a favor da paz, se se expressa no reconhecimento dos carismas e capacidades de cada pessoa.”

A política é um bem inquestionável. Todavia, a maneira como pessoas a entendem e a forma como a implementam nem sempre são compatíveis com o bem comum; em muitíssimos casos, negam-na, na medida em que enveredam pelos caminhos escusos da corrupção. Diante disso, não resta dúvida: a política, em si, é boa, enquanto as virtudes e vícios são identificados nos seus protagonistas, os cidadãos, os eleitores e os políticos com mandato eletivo. No Brasil, o ano de 2019 começa com um novo quadro institucional de gestores e legisladores, no poder executivo e legislativo, nos âmbitos federal e estadual. Essa gente enxerga a política, como caminho e expressão de paz, conforme a ótica do Papa?

* Bispo Emérito de Palmares – PE

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*Administrador Apostólico da Arquidiocese da Paraíba

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