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Coluna de Benedito Antonio Luciano: O vaso e a lareira

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 18 de fevereiro de 2019 às 14:22

Foto: Leonardo Silva/ Paraibaonline

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Não tenho filhos em idade escolar. Todos são adultos e concluíram seus cursos de graduação. Entretanto, tenho escutado de colegas que têm filhos adolescentes uma reclamação recorrente: a excessiva carga horária e de informações a que, atualmente, estão submetidos seus filhos em sala de aula.

Depois de ouvir uma, duas, três…reclamações, me ocorreu a lembrança de uma frase atribuída ao filósofo grego Plutarco (66-120 d.C.), segundo a qual: “A mente do aluno não é um vaso que se deve encher, mas sim uma lareira que se deve acender”.

Embora tenha guardado essa frase na memória, sabia que a tinha anotado em um caderno. Motivado pela curiosidade, procurei entre as velharias que preservo do meu tempo de estudante e encontrei o tal caderno em bom estado de conservação. Nele, estava anotado o ano em que fiz a tal anotação: 1972.

Naquele ano, eu era aluno do terceiro ano científico, no Colégio Estadual da Prata, em Campina Grande – PB, e me preparava para o Vestibular, com vistas a entrar no curso de graduação em Engenharia Elétrica na Escola Politécnica da UFPB.

Como aluno, desde aquele tempo eu já levava a sério as questões filosóficas e buscava refletir sobre pensamentos como esse de Plutarco. Interesse este que permanece comigo nos dias de hoje, na condição de professor.

Ora, se um vaso está cheio, não haverá espaço para receber novos conteúdos, sob pena de transbordar. Isto ocorre quando nos alimentamos até atingirmos o nível de saciedade. Nessa situação, o nosso organismo precisa de tempo para que o processo de digestão ocorra, libere espaço no estômago, e ele esteja apto a receber nova alimentação.

Por analogia, esse tempo necessário para a digestão corresponde ao tempo que o aluno precisa para assimilar o conteúdo apresentado em sala de aula. Portanto, se o tempo em sala de aula, for excessivo, o tempo para a realização das tarefas complementares, fora da sala de aula, fica comprometido. Não havendo tempo para exercícios e reflexão sobre o que foi apresentado, dificilmente o aprendizado será alcançado em sua plenitude.

Essa noção de cheio e vazio, de grande importância simbólica, está presente em três grandes livros da humanidade: no Bhagavad Gita, de Krishna; no Tao Te Ching, de Lao-Tsé; e na Bíblia Sagrada.

Os dois primeiros livros citados têm despertado grande interesse junto aos estudiosos das religiões e filosofias orientais; e a Bíblia, livro sagrado dos cristãos, tem despertado, igualmente, o mesmo interesse no lado ocidental do Mundo.

Em comum, há nesses livros o ensinamento dos caminhos que levam ao Absoluto, ao Nirvana, à Essência, ao Uno e ao Verso, enfim, a Deus, Uno e Trino. E, em todos eles, há referências ao vazio, como condição primordial para a criação e para o estado elevado de consciência.

Na Bíblia, em Marcos 6:31 está escrito que Jesus teria dito aos seus discípulos: “Vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco”.

O que Ele quis dizer com essa frase é que, em meio às atribulações do cotidiano, precisamos de tempo para o descanso, tempo para a serenidade, tempo para a meditação, tempo para o encontro consigo e com a Inteligência Cósmica.

No convite de Jesus aos apóstolos, o deserto não deve ser interpretado como um lugar árido. Pelo contrário. Metaforicamente, esse deserto se refere ao lugar onde, afastados, podemos descansar, recuperar as energias, revigorar a nossa saúde física, mental e emocional, para, depois, retomarmos às nossas tarefas com disposição e entusiasmo.

Assim, desde cedo, ao aluno deve ser reservado tempo para que ele possa liberar a sua mente e buscar o seu deserto. Pois, parafraseando Dom Helder Câmara: O deserto é fértil.

O autor é professor Titular do Departamento de Engenharia Elétrica da UFCG.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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