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Coluna de Benedito Antonio Luciano: Itinerário dos livros

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 28 de julho de 2019 às 11:08

Ao longo de minha vida, desde a infância, desenvolvi o interesse crescente pela leitura. Inicialmente, lendo revistas em quadrinhos e folhetos de cordel. Depois, na adolescência, lendo livros na biblioteca do Colégio Estadual da Prata, em Campina Grande – PB, onde enveredei pelo mundo da literatura universal, hábito que mantenho até então.

Lembro do primeiro romance que li para cumprir uma tarefa escolar estabelecida pela professora de Língua Portuguesa. Ler por obrigação é bem diferente de ler por prazer. O título desse romance: “O Gaúcho” de autoria de José de Alencar. Li e não gostei.

Talvez por estar habituado ao estilo da literatura de cordel (folhetos) e às aventuras das revistas em quadrinhos (gibis), achei bastante tedioso o estilo do escritor cearense ao descrever a ambientação onde se desenrolava o enredo do romance. Eu estava muito mais para as travessuras de João Grilo, Cancão de Fogo e Pedro Malazarte no ambiente nordestino do que para as aventuras do personagem Manuel Canho nos pampas sulistas.

Da biblioteca do Colégio Estadual da Prata, lembro da disposição dos livros nas estantes, como os da Enciclopédia Barsa, com suas letras douradas sobre o dorso avermelhado da capa de cada exemplar; e de uma coleção de livros de capas verde sobre as quais, em letras douradas, constavam os títulos das obras e os nomes dos autores.

Houve um período em que, na hora do recreio, eu não saia para brincar com os colegas no pátio do colégio. Ao invés de jogar bola, eu seguia para a biblioteca e lá permanecia lendo até o soar da sirene, anunciando o fim intervalo.

Foi nessa biblioteca, sem a menor orientação ou obrigação, que li obras de autores sobre os quais nunca ouvira falar: Freud, Jung, Kafka, Gorki, Dostoiévski, Tolstói, Plutarco, Sócrates, Spinoza, Santo Agostinho, Lao-Tsé, Sartre, Thomas Mann, Ortega Y Gasset, Dante Alighieri, Cervantes, Jorge de Lima, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Gregório de Matos e José Américo de Almeida, dentre outros.

No segundo semestre de 1972, voltei a ler por obrigação, pois no Programa do Concurso Vestibular a ser iniciado em 7 de janeiro de 1973, havia a indicação de 5 obras de autores brasileiros que deveriam ser lidas. Foram elas: Memórias de um sargento de milícias, de Manoel Antônio de Almeida; Dom Casmurro, de Machado de Assis; Os velhos marinheiros, de Jorge Amado; São Bernardo, de Graciliano Ramos; e Fogo morto, de José Lins do Rego.

Concluído o curso científico, em novembro de 1972, durante o mês de dezembro estudei para o vestibular na casa de um colega cuja mãe, Josefa Dorziat, era professora de Língua Portuguesa. Lá, encontrei no ambiente onde estudávamos uma sala com diversas estantes, repletas de livros de variados autores. Fiquei fascinado com a biblioteca da professora Dorziat.

Como tínhamos uma rotina de estudos diários, de segunda ao sábado pela manhã, perguntei se poderia levar algum exemplar para ler na minha residência entre o sábado e o domingo. O meu colega consultou a mãe dele e ela disse que eu poderia levar. Escolhi e li três obras de autores e estilos totalmente distintos: O Banquete, de Platão; O Chefão, de Mario Puzo; e O Ingênuo, de Voltaire.

Depois de aprovado no vestibular e ingressado no curso de graduação em Engenharia Elétrica na Escola Politécnica da UFPB, consegui conciliar o tempo entre os estudos dos livros técnico-científicos com as leituras dos livros de literatura.

A partir dessa época vieram, dentre outras, as leituras de autores como Hermann Hesse, Richard Bach, Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Albert Camus, Milan Kundera, Julio Cortázar, René Descartes, Oscar Wilde, Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Humberto Eco, Millôr Fernandes, Paulo Francis, Lima Barreto, Fritjof Capra, Carl Sagan, Richard Feynman, Henri Poincaré, João Guimarães Rosa e Braulio Tavares.

Com o passar do tempo, fui comprando livros em livrarias e sebos e formando uma biblioteca com uma quantidade significativa de exemplares, até que um dia, com a mudança da casa ampla onde morava para um apartamento com metade da área construída, tive que me desfazer de quase tudo.

No apartamento, por falta de espaço para acomodar as estantes, lá se foram centenas de livros e revistas, doados para bibliotecas públicas; lá se foram vários discos de vinil; lá se foram quadros, telas e outros objetos de arte, doados para pessoas amigas, restando em meu poder apenas os que não consegui me apartar deles.

Ainda sobre os livros, um fato curioso se deu quando no início do namoro a minha esposa, que é graduada em Sociologia, estranhou o fato de não visualizar nas estantes da minha casa nenhum livro de física, matemática, computação ou qualquer outro tema relacionado diretamente com a minha formação profissional.

Então, eu esclareci: os livros técnico-científicos estão devidamente dispostos e bem cuidados nas prateleiras de quatro estantes de aço mantidas na minha sala de trabalho na universidade.

Aos livros e aos seus autores todo o meu apreço e gratidão por tudo que me proporcionaram e ainda proporcionam, pois continuo seguindo o conselho do livreiro José Pedrosa: “Faça do livro o seu melhor amigo”.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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