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Coluna de Arlindo de Almeida: Colcha de Retalhos

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 8 de abril de 2021 às 23:12

Grande desafio para quem faz comentários sobre determinado assunto em dias que um único tema se faz presente, e encontrar um tópico para desenvolver ou realizar uma análise crítica, é como procurar agulha no palheiro. Por isso mesmo, assistimos uma rápida migração de profissionais badalados em matéria de economia, hoje voltados a áreas que antes não imaginávamos que eles tivessem tanto conhecimento.

Hoje só se fala em …Covid 19.  As peripécias argumentativas, usando estatísticas para justificar pontos de vista ideológicos são dignas de elogio. E a ideologia é uma questão de fé, como disse Schumpeter. E a fé é a certeza daquilo que não se vê. 

Com efeito, foi muito rápida a proliferação de economistas que antes abordavam temas atinentes à sua formação e que passaram a falar, com muita convicção, sobre saúde, por exemplo.

Achamos mesmo que a medicina seria muito mais eficiente se esses profissionais tivessem adotado não a ciência de Adam Smith, mas a do Grego Hipócrates, considerado o “pai da Medicina“, maior médico da Antiguidade, nascido em 370 a.C e que morreu há 2.380 anos.

Aos de conhecimentos rudimentares resta procurar fugir do lugar quase comum e buscar outros assuntos para abordar. Para tanto, abrindo os olhos vê-se que ainda existe algo importante a ser comentado, se bem que em fragmentos, como neste instante, algumas partes dessa vasta colcha multicolorida dos retalhos que formam o cotidiano. Gostaríamos, pois, de trazer para reflexão alguns assuntos significativos para definição do nosso futuro. 

Como variáveis essenciais no plano nacional temos, dentre outras: 

1º – A Bolsa de Valores de São Paulo, que é um termômetro para medir o comportamento dos investidores, está estabilizada em patamares elevados (117 mil pontos), com certeza refletindo a movimentação em outros países. Em Nova Iorque a bolsa tem apresentado curva ascendente desde janeiro, puxando as congêneres espalhadas pelo mundo. Mostra a disposição do mercado em investir e dinheiro não falta para isso. Falta política de atração de investimentos. 

2º – A cotação do dólar, acima dos R$ 5,60, tem uma dupla face: confere maior competitividade às exportações brasileiras, mas, simultaneamente, encarece os produtos importados, geralmente industrializados. Isso revela uma fragilidade do Brasil, submetido a um processo de perda de importância da indústria nacional à falta de políticas de incentivo ao investimento no setor.

3º assunto – As previsões do Fundo Monetário Internacional, divulgadas ontem, para o crescimento econômico mundial em 2021 estão sob expectativa com o recrudescimento da pandemia. A dependência é da vacina e do apoio fiscal. “Os países ricos vão se recuperar antes dos emergentes”.

Enquanto que as previsões para as economias dos países avançados e os emergentes são positivas, com um crescimento médio de 6% no Brasil ficaríamos com 3,7%, abaixo das maiores economias da Europa, com exceção da Alemanha com 3,6%. A Índia lideraria com 12,5% e a China ficaria nos 8,4%. Na América ficamos abaixo de EUA (6,4%), Chile (6,2%, Argentina (5,8% e México 5,0%.  

4º assunto – As reservas internacionais do Brasil permanecem estáveis, hoje com US$ 355 bilhões, ante US$ 356 bilhões em dezembro de 2020. Isso confere ao país uma zona de relativo conforto frente aos mercados mundiais.

Num âmbito restrito à Paraíba, gostaríamos de trazer dois assuntos que deixam vislumbrar uma realidade de graves repercussões, talvez irreparáveis, no longo prazo: as desigualdades regionais. 

1º – No primeiro trimestre de 2021, as transferências do Governo do Estado, a título de participação dos municípios no ICMS, cresceram 17%. No mesmo período, em 2020, R$ 377,337 milhões e em 2021, R$ 441,744 milhões.  Para as duas maiores cidades:  as transferências para João Pessoa subiram de R$ 81,470 milhões para R$ 104,319 milhões (+28%); Para Campina Grande, cresceram de R$ 52,396 milhões para R$ 62,621 (+ 20%).  CG ficou em desvantagem em relação à Capital.  Resta-nos aprofundar as razões para esse fato. 

2º – Esta semana o Governo do Estado anunciou um Programa de Investimentos em rodovias e mobilidade urbana, totalizando recursos da ordem de R$ 435 milhões. Para mobilidade urbana foram destinados R$ 50 milhões beneficiando João Pessoa e municípios vizinhos.

Campina Grande não consta da relação, dando a impressão, à primeira vista, que nossa cidade não tem problemas de infraestrutura, fazendo com que o Plano do governo a tenha omitido.  Fica a impressão de que o redesenho territorial da Paraíba, iniciado há algum tempo, com o privilegiamento da zona litorânea, vem se cristalizando, aumentando o fosso existente com os outros municípios. 

Os problemas são muitos, tanto nacional como localmente. O que o Governo Federal tem feito para tratar do longo prazo? Como transitar em mercados cada vez mais disputados, em que vários espaços do comércio internacional já estão ocupados por países que estavam atrás de nós? Como aproveitar bem as vantagens comparativas que ainda temos, passando a vender, por exemplo, derivados do agronegócio e não apenas matérias primas?

Como promover a reindustrialização do Brasil, atraindo novos investimentos em negócios que utilizem alta tecnologia, na venda de produtos industriais acabados e não apenas primários e semiacabados (como na siderurgia e no petróleo)? Como agir quanto ao apoio fiscal, quando temos apresentado déficits orçamentários e consequente aumento da dívida pública? 

No que nos toca mais de perto. Como estão reagindo as lideranças de Campina Grande ante os fatos narrados de uma crescente perda de importância de nossa cidade? Temos projetos de mobilidade urbana, e de outra natureza, que nos habilitem à captação futura de recursos como esses que foram anunciados agora pelo Governo do Estado?

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