Coluna de Arlindo Almeida: Dia Mundial do Pobre

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 15 de novembro de 2018 às 11:25

O Dia da Mundial da Alimentação é comemorado em 16 de outubro em quase todos os países, desde 1981, por iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Homenageia a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), fundada em 1945, em Quebec, no Canadá. Com sede em Roma, seu principal objetivo é elevar os níveis de nutrição mundiais.

Não por acaso, a Igreja católica celebra neste domingo, 18 de novembro, o Dia Mundial do Pobre. Em 13 de junho de 2018 assim se expressou, em Mensagem especial, o Papa Francisco. No texto, o Papa Francisco medita sobre um versículo do Salmo 34: “Este pobre grita e o Senhor o escuta “. Para escutar os pobres, destaca o Santo Padre: “É do silêncio da escuta que precisamos para reconhecer a voz deles. Se falarmos demasiado, não conseguiremos escutá-los. Muitas vezes, tenho receio que tantas iniciativas, apesar de meritórias e necessárias, estejam mais orientadas para nos satisfazer a nós mesmos do que para acolher realmente o grito do pobre “.

Muitos dizem que a população da Terra, de cerca de 7,5 bilhões de pessoas, é demasiadamente grande para que se possa garantir sustento a tanta gente. Segundo eles, o alimento que produzimos seria suficiente para uma população máxima de três bilhões de pessoas. É uma visão muito pessimista e as estatísticas não confirmam isso. Fazer o que com mais da metade da população mundial? Relegá-la ao esquecimento e à fome?

O fato é que, apesar dos progressos tecnológicos, dos modernos meios de produção, de o total de alimentos produzidos ser suficiente para garantir níveis de segurança alimentar à população do mundo, ainda convivemos com o fantasma da fome e da miséria por este planeta tão desigual. O problema não está na quantidade, mas na desigualdade, como bem diz o Santo Papa.

Estatísticas da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), indicam que no mundo existiam, em 2017, aproximadamente 820 milhões de pessoas subalimentadas. Esse número tinha caído de 945 milhões em 2005, para 820 milhões em 2010, experimentando nova queda para 783 milhões em 2014, e daí começar a subir em 2016 para 804 milhões.

As estatísticas da FAO classificam 115 países numa escala de zero a 100; valores inferiores a 10 significam baixa fome (40 países); acima de dez a 19.9, fome moderada (27 países); de 20 a 34,9 fome grave (45 países); acima de 35 a 49,9, fome alarmante (6 países). Acima de 50, fome extremamente alarmante (um país).

Na América do Sul, quase todos os países (incluindo o Brasil) estão classificados na categoria inicial, baixa fome, com índice abaixo de 10. São exceção Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana e Suriname, com fome moderada. Na categoria de fome grave está Angola; na fome alarmante está a República Democrática do Congo e, finalmente, na categoria de fome extremamente alarmante a República Centro-Africana. Na Ásia, a Índia se enquadra na categoria de fome grave e a China como de baixa fome.

Dado preocupante é que a nível mundial, na África, Ásia e América Latina as mulheres têm mais probabilidade que os homens de serem afetadas por insegurança alimentar grave.

Dados divulgados recentemente pela  FAO e um grupo de agências da ONU revelam que o combate à fome no Brasil sofreu estagnação.

A entidade estima que em 2017 havia “menos de 5,2 milhões” de brasileiros passando fome, uma mudança marginal em comparação aos números que vinham sendo apresentados nos últimos anos.

Em 2014, essa taxa era de “menos de 5,1 milhões”. Dois anos antes, o volume era de 5 milhões. O ponto mais baixo foi atingido em 2010, quando “menos de 4,9 milhões” de brasileiros eram considerados famintos.

Mas não deixamos de evoluir. Os números atuais estão distantes da realidade de 1999, quando 20,9 milhões de brasileiros eram considerados desnutridos. Em 2004, esse volume havia sido reduzido para 12,6 milhões e, em 2007, era de 7,4 milhões.

Somos o quarto maior produtor de alimentos do mundo e o segundo maior exportador. É vergonhoso que ainda tenhamos cerca de 5,2 milhões de brasileiros padecendo de insuficiência alimentar.

Dois fenômenos podem explicar de forma direta esse estado de coisas: a desigualdade da distribuição da renda e o desperdício. Segundo a FAO cerca de 30% do que é plantado no Brasil nunca chega ao consumidor, e a isso devem ser acrescentadas as perdas na comercialização. No total, não deverá ser menos que 50% do que poderia ser utilizado. A consequência imediata é o encarecimento de custos e, consequentemente, a elevação de preços, agravado pelo baixo poder aquisitivo de grande parte da população.

Aos governantes uma advertência: não basta apenas confiar nos programas sociais de concessão de benefícios, o mais importante e indispensável o Bolsa Família, pois isso, no longo prazo vicia o cidadão a não trabalhar. Tudo tem que vir acompanhado de um forte programa de capacitação e geração de pequenos negócios familiares ou em cooperativas, com base nas potencialidades locais, mesmo em zonas extremamente secas como o interior do Nordeste: se não se pode produzir frutas de clima temperado, que se criem cabras, se produza leite e derivados, replicando a ampliando vitorioso trabalho já desenvolvido há alguns anos pelo SEBRAE/ Paraíba – o Procariri. Os exemplos são muitos, basta pesquisar, perseverar e trabalhar com denodo, pois só o trabalho dignifica o homem.

O pobre grita e o Senhor o escuta. Será que os homens o estão escutando?

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