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Coluna de Ailton Elisiário: Tristeza e alegria

Ailton Elisiário. Publicado em 23 de junho de 2019 às 10:32

Não se pode imaginar que as festas sejam tristes. Festas são alegria, descontração, infantilidade, meiguice, carinho, vida. Notadamente as festas populares, como as carnavalescas, as juninas, as natalinas, e as próprias de cada comunidade. Mas, em todas as festas, há sempre pessoas que estão tristonhas, muito embora receptivas ao burburinho delas.

As tristezas particulares, no entanto, não pesam nem contam na euforia coletiva. Elas dizem respeito a pessoas isoladas, e não ao conjunto de todas aquelas que se divertem, esquecidas ou fugindo de suas próprias tristezas. Não fazem parte da alegria geral, nem podem sobrepor-se à felicidade de ninguém, mesmo daquelas que convivem com as entristecidas, compartilhando os seus dias.

As tristezas dessas pessoas provêm das mais diversas fontes: saudade de entes queridos, que se acham longe na terra ou mais ainda no céu; parentes ou amigos que se acham doentes, às vezes sem perspectivas de cura; familiares que não recebem melhores condições, à falta de recursos que lhes supram as necessidades sociais; exigências da sociedade inviabilizadas no atendimento; responsabilidades admitidas incapazes de serem cumpridas; e tantas outras mais.

Essas tristezas, porém, muitas vezes são as próprias alegrias de quem as sentem. Quantos pais e quantas mães, mesmos tristes por não participarem diretamente das festas, estão felizes por seus filhos, ao vê-los alegres lá com seus colegas? Quantos não se sacrificam até, para permitir-lhes esses momentos de felicidade? Quantas pessoas se privam de sua felicidade, para tornar felizes aqueles a quem amam?

Ralph Waldo Trine disse que a “nossa felicidade depende da índole dos nossos pensamentos”. Em assim sendo, podemos deduzir que quando estamos tristes, nem sempre a nossa tristeza significa uma ausência de alegria, mas que também na tristeza sentida há alegria. Isto é verdade, posto que, mesmo triste, pode-se sentir alegria, quando, por exemplo, alguém amado se desvencilha de profundo e irreversível sofrimento, partindo em definitivo. De modo idêntico, mesmo ao ser tomado pela tristeza, pode-se sentir alegria, quando a esperança de viver melhor suplanta a dor da separação.

Estamos vivenciando os folguedos juninos: luzes, cores, sons, ritmos, sabores, perfumes, peles. Nossos cinco sentidos estão aguçados, nossa sensibilidade mais apurada. Risos, conversas, encontros, comidas, bebidas, danças, espetáculos. Nossos corpos e nossas almas se harmonizam em frenesí. Olvidamos as preocupações, os problemas, os anseios. Porém, ninguém se dá conta de tantos que estão tristonhos, de tantos que estão alegres, de quantos ao mesmo tempo estão felizes e tristes.

George Sand disse que “Deus pôs o prazer tão próximo da dor, que muitas vezes se chora de alegria”. As festas se sucederão sempre, e nelas, risos e choros, permanecerão. É a dupla face do deus romano Janus na vida de cada um de nós, como a fazer-nos olhar ao que foi e ao que será, para agirmos com sabedoria diante da vida.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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