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Coluna: Carolina de Jesus, o arco-íris e Jurani

Jurani Clementino. Publicado em 4 de dezembro de 2020 às 10:37

Ontem à tarde me sentei numa rede, armada aqui na varanda, e fui ler o “Diário de uma favelada”, livro que leva como título principal “Quarto de Despejo” da escritora mineira Carolina Maria de Jesus. Nesse texto, uma espécie de diário de Ane Frank de uma moradora de um barraco, em São Paulo, a autora narra os conflitos, os dramas, a fome, a miséria e à luta pela sobrevivência de uma catadora de papel entre os anos de 1955 e 1960. Trata-se da história de vida da própria Carolina. Uma mulher negra, semianalfabeta, mãe de três filhos e que sofre todo tipo de privação social para sobreviver na Favela do Canindé, hoje, inexistente, mas que ficava onde foi construída a Marginal do Tietê em São Paulo.

O livro é todo sofrimento. A fome, a violência, a discriminação, a desigualdade social, tudo é narrado de forma nua e crua. É o olhar dos de dentro. O dia a dia da própria Carolina e dos outros tantos moradores da favela. Mas tem uma parte dessa narrativa que fez muito sentido com o que aconteceu ontem. Ela diz que quando era menina sonhava em ser homem que era pra defender o país. Porque ela lia os livros de história do Brasil e ficava sabendo que existiam guerras e nessas guerras só se encontrava nomes masculinos como defensores da pátria. E aí ela dizia para a mãe:

“Por que a senhora não me faz virar homem?”

E a mãe respondia:

“Se você passar por debaixo do arco-íris você vira homem.”

E a jovem e inocente criança Carolina de Jesus acreditava naquilo e confessa no diário que sempre que via um arco-íris saía correndo na direção dele. Mas o arco-íris estava sempre se distanciando. “Igual político distante do povo. Eu cansava e sentava. Depois começava a chorar”. Coincidência ou não, quando eu me levantei da rede e olhei atrás de mim, no que seria o nascente, o tempo havia mudado. Parecia que ia chover. E, para enfeitar aquele céu coberto por nuvens carregadas, um belo arco-íris estava ali, diante dos meus olhos, conectando as antenas parabólicas que enfeitam (ou enfeiavam) o alto dos prédios. Eu ainda com o livro de Carolina nas mãos, lembrando-me do que dizia sua mãe sobre passar por debaixo do arco-íris e pensando também que no sertão a gente sempre ouvia dizer que em cada uma das pontas daquele fenômeno natural existia uma botija. Quem conseguisse chegar lá, descobriria e ficava rico.

De repente, na minha imaginação de leitor e de sertanejo, nós éramos todos Carolina de Jesus: iludida por sua mãe. Porque hoje eu sei, como a Carolina também ficara sabendo, que não adiantava tentar passar por debaixo do arco-íris ou ir atrás de uma de suas pontas. Ele sempre iria se distanciar. É impossível alcançar a ponta do arco-íris ou passar por debaixo dele. Você só vai enxerga-lo dependendo da sua posição e distância em relação ao fenômeno. Trata-se de uma combinação natural da luz do sol com os pingos de chuva. Para perceber, precisamos estar numa determinada posição que contemple esse elo entre iluminação solar e água das nuvens. O arco-íris vai sempre ficar na posição oposta do sol. É ele a prova de que a luz é uma junção de todas as cores.

Só pra finalizar, Carolina também usa uma cor para pintar a fome. Talvez aquela favelada tenha tomado por empréstimo uma daquelas sete cores do arco-íris para pintar suas dores e necessidades. Pra ela a fome é amarela. Quem tem fome não enxerga as outras cores. Tudo ganha tonalidades turvas e amareladas. Escrevi a crônica em cinco minutos. Quando terminei a chuva caia lá fora e as crianças brincavam debaixo das garagens vazias. O arco-íris já não existia mais.

Jurani Clementino
Campina Grande 03 de Dezembro de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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