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Colheita do arroz

Jurani Clementino. Publicado em 9 de junho de 2018.

A colheita é sempre um tempo de celebração. Em todas as civilizações se festeja esse momento como sinônimo de riqueza e fartura. Por falar nisso, meu avô materno sempre que eu pedia a benção, ele dizia: Deus te dê fortuna. Eu não sabia o que era fortuna. Não entendia porque ele não falava igual a todos os outros que diziam: Deus te abençoe, meu filho. Depois fiquei sabendo que uma boa colheita podia ser sinônimo de fortuna. Pra mim, a colheita do arroz, traz um significado particular e ao mesmo tempo comum a muitos que ali moravam. Especialmente em Várzea Alegre, um município nacionalmente conhecido como a Terra do Arroz.

Tudo começava quando o agricultor se deparava com aquele plantio completamente amarelo, como se Deus, na noite anterior, tivesse derramado ouro em pó sobre aquele pedaço de chão. Era chegada a hora. O dono do roçado resolvia então, reunir os amigos, vizinhos e companheiros da luta diária para fazer a colheita. Primeiro cortava o arroz pelo pé, e construía pequenos montes que ficavam espalhados pela roça. Depois que o legume estava completamente cortado, o agricultor escolhia, de preferencia um belo dia de sol, para a chamada “bata de arroz”. Para isso organizava-se em adjunto ou mutirão com dez, quinze, vinte, trinta homens. E para animar esses trabalhadores, o dono da roça, comprava garrafas de cachaça “Ypioca” e pacotes de fumo “só quero esse”.

Para tirar aqueles grãos da palha, montava-se uma grande lona no meio da roça, sobre ela colocava um banco com tábuas de madeira em formado de uma pequena mesa quadrada, ali ao redor daquele banco os homens se revezavam batendo os cachos de arroz para soltar os grãos. Os trabalhadores eram divididos em três grupos: o primeiro ficava responsável por trazer, no ombro, o arroz ainda na palha para ser batido; o segundo por homens que batiam o legume no banco de madeira para se desprender da palha e um terceiro grupo ficara responsável por transportar os sacos de grãos, no lombo de mulas, até casa do dono da roça.

Geralmente a colheita se estendia por todo o dia. E cabia às mulheres prepararem o almoço e levar para os trabalhadores. Por volta de onze horas, meio dia elas chegavam com as panelas de comida na cabeça e se acomodavam debaixo de um pé de juazeiro ou qualquer árvore, que ficasse ali perto, e fornecesse uma boa sombra. Os agricultores então davam um tempo no trabalho para almoçar. Terminado o almoço, todos voltavam ao trabalho e as mulheres retornavam pra casa e iam preparar a janta que nada mais era do que imensas panelas de arroz doce. Era uma mistura deliciosa que levava, além do arroz, canela, cravo, leite, rapadura, e amendoim triturado. Ao fim da tarde os trabalhadores jantavam na casa do dono do roçado. E finalizavam o dia comemorando aquela colheita. Nós, meninos acompanhávamos tudo, seja montados em cima dos burros quando voltavam sem carga para pegar mais sacas de arroz ou se divertindo nos montes de palhas jogadas ao ali ao redor.

Quando em 2001 deixei o Ceará, algum tempo depois me deparei com uma espécie de arroz doce, em Caruaru – Pernambuco que, nem de longe, lembrava aquele dos adjuntos de trabalhadores cearenses. Era uma iguaria branca, adoçada com açúcar e leite condensado. A primeira vez que provei senti um embrulho na barriga, mas depois fui me acostumando. Vez por outra comia só pra ter a impressão daqueles momentos arquivados na memória nas inesquecíveis colheitas de arroz feitas no sertão cearense.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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