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Chuva no Sertão

Jurani Clementino. Publicado em 3 de março de 2018 às 10:12

Por Jurani Clementino (*)

Essa semana uma amiga leu um texto do grande Xico Sá que falava sobre as chuvas no Nordeste e disse que lembrara de mim. Que parecia uma das minhas crônicas. Meu Deus, quem sou eu diante de um colunista do El Pais Brasil? Mesmo assim, temos aproximações: Xico Sá é jornalista, escritor e cearense da cidade do Crato. Morou muito tempo no Recife e hoje reside no Rio de janeiro. É uma dessas mentes brilhantes num país de tanta gente medíocre. Por isso, me senti tão honrado. Ainda mais num texto que expressa a nossa alma sertaneja. Essas almas que choram de felicidade ao saber que a chuva apagou a poeira das estradas do sertão. Desses caririzeiros que sentem o coração bater acelerado ao saber que as gotas de águas fazem barulho no telhado das casas sertanejas.

Não tem como negar, a gente transborda de felicidade ao saber que não é seca no Sertão. Que o homenzinho do campo acordou feliz com a terra molhada e com a possibilidade de uma boa colheita. A gente se anima em ver a plantação espalhar seu verde marinho pelos campos calejados da Caatinga. Como é bom receber as imagens da chuva desabando sobre aquelas bandas. Os riachos cheios. As estradas quase intransitáveis. As imagens dos meninos se lambuzando nas águas barrentas empossadas nas estradas e terreiros. O que era cinza se transformando, como num passe de mágica, num grande manto esverdeado. Ficamos contentes em acompanhar, dia após dia, quase em tempo real, os índices pluviométricos que são publicados nas redes sociais dos jovens sertanejos. Ouvindo a voz de João, meu irmão, que nunca pega num telefone, dizer que o milho da chapada tá uma beleza, que os barreiros estão sangrando e que o capim já encobre os animais.

É uma dessas coisas que não tem preço. É a representação de um estado de felicidade indescritível. Saber ainda que tudo se renova. Que os profetas do tempo acertaram. Que o João de barro fez a casa na posição contrária do vento e das chuvas. É o sertão em festa. Mesmo longe nosso coração não se ausenta. Ele permanece ali. Chorando na tristeza e vibrando com as conquistas. Carregamos o sertão por aonde vamos. Nosso coração permanece lá. Nossa alma não desapega dali. Porque ali enterramos nosso umbigo. E ali moramos eternamente. O sertão habita dentro da gente. Em muitas situações significa a única razão de nossa existência.

Quero mais é voltar e tomar banho de riacho, mergulhar nos açudes e comer milho verde assado ou transformado em canjica. E ver o sertanejo tão calejado pelas mil dificuldades da vida dar aquele sorriso largo e verdadeiro. E dizer sem medo de errar esse ano tivemos um ótimo inverno. Teremos uma boa colheita. Pronto, é isso o que basta. Xico Sá, meu nobre, estamos aí, somos o sertão ecoando pelos mais distintos e distantes rincões desse país. Viva!

(*) Jornalista, escritor, professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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