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Chinelo de Rosinha

Jurani Clementino. Publicado em 11 de junho de 2019 às 12:09

No início da década de setenta do século passado, a cidade de Várzea Alegre – CE, ainda não possuía uma emissora de rádio. O empresário várzea-alegrense Raimundo Correia Ferreira, que morava em Cajazeiras na Paraíba – e era dono da empresa de ônibus Viação Brasília, viu na radiodifusão uma maneira de expandir os seus negócios. Inicialmente pensou em conseguir uma concessão para uma rádio a ser instalada em Juazeiro do Norte ou até mesmo para a cidade paraibana onde residia. Não obteve sucesso porque já havia outras emissoras nessas cidades.

Como Raimundo Ferreira, além de ser filho de Várzea Alegre, possuía fortes contatos comerciais com sua cidade natal, resolveu então investir ali. Nessa empreitada, contou com o apoio do então Deputado Federal Mauro Sampaio, ex-prefeito de Juazeiro do Norte por dois mandatos (1967 e 1996), conhecido por ter construído a estátua do Padre Cícero na colina do Horto e o estádio O Romeirão. O deputado teve o apoio de um irmão que, à época, trabalhava no Ministério das Comunicações em Brasília. Depois de um longo processo de tramitação, Raimundo Ferreira ganhou a concessão e inaugurou, no dia cinco de junho de 1978, a Rádio Cultura de Várzea Alegre. Uma emissora em Amplitude Modulada – AM, com frequência inicial de 1530 Khz. Homem de negócios, o empresário Raimundo Ferreira repassou os direitos de concessão da recém-inaugurada emissora de rádio, no ano seguinte, para o jovem médico e político várzea-alegrense Doutor Pedro Sátiro.

Naturalmente que a chegada desse empreendimento comunicacional a cidade de Várzea Alegre exigia uma grande festa. Para isso, um palco foi cuidadosamente montado em frente a emissora, localizada na Rua Major Joaquim Alves. Por ali se apresentariam o Rei do Baião, Luiz Gonzaga e um dos grupos de forró mais conhecidos da época: O Trio Nordestino. Aquela era uma excelente oportunidade para o compositor da terra, o poeta Zé Clementino, mostrar aos artistas de fora suas novas composições. Só havia um problema: Zé não estava nem aí par compor e não tinha nenhuma música pronta. Vale destacar que exatamente no dia da festa de inauguração da Rádio Cultura, ele estava tranquilamente bebendo com um grupo de amigos numa churrascaria que ficava na entrada da cidade.

Um destes seus amigos teve a brilhante ideia de pedir para ele fazer uma música e entregar ao Trio Nordestino. Foi aí que Paulo César Clementino, irmão mais novo de Zé, e que também se encontrava naquele local, pegou uma caneta e rascunhou, num papel em branco, dois pequenos versos introdutórios: “Dizem que Rosinha gosta mesmo de dançar, não pode ver um forró que ela logo quer entrar”. Escreveu esses versos e entregou para Zé que, na mesma hora, completou: “Achei interessante, não parei de reparar, a sola do chinelo dela que é danado pra chiar”. E em questão de minutos letra e melodia estavam prontas. No mesmo ano a música foi gravada pelo Trio Nordestino no LP “Os Rouxinóis da Bahia”. Uma letra simples e cheia de gingado que caiu no gosto popular. Ainda em 1978, “Chinelo de Rosinha” aparece como trilha sonora do filme “Se Segura Malandro”, do diretor Hugo Carvana. Os interessados podem conferir em vídeo disponível no YouTube.

Jurani Clementino

05 de Junho de 2019 – Campina Grande – PB

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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