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Campina Grande - PB

Chico Pereira na Academia Paraibana de Letras

02/08/2016 às 9:38

Fonte: Da Redação

jose-marioPor José Mário da Silva*

Humildade, paciência e persistência, eis a tríade comportamental que norteou os passos trilhados pelo professor universitário e artista plástico Chico Pereira em sua travessia rumo à imortalidade acadêmica. Humildade, por ter sabido compreender que o insucesso de agora é apenas a antessala do êxito que vem depois. Paciência, por, de igual modo, ter entendido que toda disputa eleitoral, inclusive as que se agenciam no âmbito das instituições que trabalham com o capital simbólico do conhecimento estético-literário, caso específico das Academias de Letras espalhadas por todo o território nacional, matiza-se, às vezes, por normalíssimos acirramentos, ao fim dos quais somente um concorrente logra conquistar o prêmio desejado. Paciência, que é também uma sublime virtude cristã posta no coração do homem pelo agir gracioso do Santo Espírito do Deus. Persistência, por recusar-se a aceitar, passivamente, a conjugação do verbo desistir, na firme convicção de que, conforme preconizam os imortais versos de do poeta Thiago de Mello: “Faz escuro mas eu canto/porque a manhã vai chegar”.

E a manhã finalmente chegou para Chico Pereira no dia oito de julho quando na condição de candidato único, o aludido professor obteve vinte e sete votos, dentre os vinte e oito votantes que compareceram ao belo prédio da Rua Duque de Caxias e chancelaram, majoritariamente, o nome de Chico Pereira como o mais novo integrante da Academia Paraibana de Letras, a Casa de Coriolano de Medeiros, a mais importante instituição cultural de quantas já brotaram do solo paraibano.

Eu tive a ventura de descer a neblinosa Serra da Borborema, que é como o mestre e amigo Hildeberto Barbosa Filho referencializa a cidade de Campina Grande e, com alegria, votar em Chico Pereira. Quando no dia vinte e sete de abril do ano passado, tive a singular bênção de ter sido eleito para ocupar a prestigiada cadeira de número trinta e cinco da Academia Paraibana de Letras: cadeira que foi por último ocupada pelo genial escritor Ariano Suassuna, vislumbrei na pessoa de Chico Pereira, um contendor elegante e infrangivelmente comprometido com a cordialidade gestual. Cordialidade gestual inerente a quem sabe que a espacialidade acadêmica, sobre ser a casa do mérito literário e o justo abrigo de quem faz da vida do espírito o ponto de partida e de chegada de todas as suas cogitações intelectuais mais efetivas, é também, fundamentalmente, a morada do congraçamento, dos relacionamentos interpessoais firmados no insubstituível porto da fraternidade e cais do respeito mútuo; ainda que cimentados pelo necessário cultivo das saudáveis divergências, sempre presentes onde habitam seres humanos que são profundamente semelhantes uns aos outros; e, ao mesmo tempo, radicalmente distintos, em face da ontológica singularidade que os imanentiza.

Chico Pereira mostra-se inteiramente compatibilizado com a arte/ciência do conviver e do conviver bem, atitude própria de quem sabe construir pontes para a alteridade, e não muros que segregam e estiolam a tão necessária comunicabilidade. Com Eduardo Portella, o mestre da crítica poética brasileira, mais precisamente nos preciosos ensaios enfeixados em Literatura e Vida Nacional, aprendemos que “somos um ser para o outro e fora do diálogo o que existe é precipício”.

Homem profundamente ligado às cenas e aos cenários da desbordante territorialidade da cultura e das produções artísticas da Paraíba, Chico Pereira não chega à Academia Paraibana de Letras como uma espécie de estranho no ninho, mas sim como um ser que, mais cedo ou mais tarde, haveria de encontrar meritório acolhimento na casa que antes de ser o conúbio físico de pedra, cal e cimento, foi a matéria viva do visionarismo e agir, criadores, de homens que entenderam, assimilando a imorredoura lição do filósofo norte-americano Emerson, que “o homem é apenas metade de si mesmo, a outra metade é a sua expressão”.

E a Academia Paraibana de Letras quer ser exatamente o lugar superlativo da criadora expressão cultural e artística de homens e mulheres que anelam fazer da literatura, diria Machado de Assis, “uma espécie de segunda alma”. Não somente da literatura, mas de todas as instâncias sociais habitadas pelos homens e que são passíveis de serem transfiguradas e transformadas em imperecíveis monumentos de criatividade e de beleza.

Eis a estética e o trabalho, Decus et Opus, de mãos dadas a serviço da plenitude humana, plenitude essa tão aviltada em nossos tempos rasurados por barbáries de variegada espécie. Não bastassem os predicativos do ser altamente sociável que é Chico Pereira, devidamente sedimentado na fisionomia de nossa Paraíba, avulta o Chico Pereira autor de um livro extraordinário: Paraíba – Memória Cultural, lançado em dois mil e treze.

Transitando entre a memória da cultura e a cultura da memória, o livro do escritor paraibano constitui-se na tradução mais exata de um vertical mergulho no universo das mais diversificadas manifestações culturais do nosso Estado. Nesse sentido, o livro de Chico Pereira é um admirável libelo contra a amnésia, tão bem etiquetada pelo slogan: o Brasil é um país sem memória.

Em direção diametralmente oposta, Chico Pereira quis singrar os mares da lembrança radical e afetuosa de tudo quanto temos e somos; o que nos individualiza e confere forma e substância à nossa identidade. Não pretendendo ser uma apreciação acadêmica do âmago da realidade cultural paraibana, o livro de Chico Pereira erige-se, como bem o proclama Gonzaga Rodrigues, como um livro “de amor à Paraíba e ao gênio ou a riqueza de talento dos seus filhos”. Irretocável, a apreciação do cronista maior, Gonzaga Rodrigues.

Nessa empreitada, Chico Pereira sai aprovado e com louvor, dado que Paraíba – Memória Cultural cumpre com esmero o propósito para o qual foi criado: cartografar a vida cultural do nosso Estado. Por essas razões, entendo que a Academia Paraibana de Letras se enriquece recebendo como o seu mais novo membro, o imortal Chico Pereira.

(*) Membro da APL

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