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Chega de Saudades!

Josemir Camilo. Publicado em 1 de março de 2019 às 10:30

Ou “Ride palhaço”! Começo por buscar Arrelia. Dos carnavais dos anos 60, passei dois, preso em seminário, em Camocim de São Félix, no brejo, mas, mesmo lá, as lembranças das brincadeiras dos carnavais de Goiana já se tornavam saudades.

Nas rodas que ser formavam, na hora do recreio, aproveitando a época, no seminário, os ensebados meninos discutiam para ver quem sabia mais de músicas.  Ao escolher música de carnaval, minha memória voava de volta à meninada, à porta do Cine Nácar (que ninguém chamava assim, e, sim, sem o acento) e ficava disputando cédulas de cigarro nas apostas de quem adivinhava cada sucesso de carnaval. Ride palhaço foi de 58, alguém respondia rápido. Cabeleira do Zezé? Saiu, quer ver? No carnaval de 64. E eu lembrava que esta marchinha além de satirizar os cabeludos amantes do recém-chegado rock, foi utilizado para menosprezar “Cabeleira”, líder da Liga Camponesa, que tinha fama, desde os canaviais de Goiana aos de Sapé e Mari. A brincadeira nem de longe pegou.

Morrendo de saudades do carnaval ingênuo, parecia uma ironia, lá, no convento que segurava um disco do palhaço que viu, pela primeira vez, em cartaz, Arrelia, no cinema de minha cidade. Aproveitava, agora, para decorar todas as marchinhas do carnaval carioca. Esse entrou no seminário por parecer mais ingênuo, o disco. Saía a marchinha e Goiana emplacava já no carnaval. Às vezes, para certos sucessos, levava-se bem um ano, para que passasse, primeiro no cinema, nas comédias de Oscarito, Ankito e Grande Otelo. A turma do funil é de 56, não é não?

Saído do seminário, fins de 63, deixei-me levar por todos os gêneros do carnaval seguinte. Havia uma banda sui generis Os Caladinhos, e acompanhei sambando (ou o que meus pés entendiam) e, quando entravam na casa de uns dos membros, ou por convites, todos calados, para tomar água que passarinho não bebe, eu, pacientemente, único passista voluntário, que ia à frente da banda, esperava, encostado na parede da casa, que logo voltassem a sair. Sentavam os músicos, no calçamento (ou era antes da cachaça?), sempre em silêncio; andando, melhor: marchando, tocavam sambas, frevos e marchinhas. Poucos acompanhavam dançando. Havia uma resistência a homem dançando, solto, desde que um ex-seminarista, um verdadeiro galã de cinema, resolveu virar porta estandarte de Lenhadores e o pessoal dizia que ele não era sério.

E a tertúlia continuava na sala de recreio do convento, no brejo pernambucano. E “O teu cabelo não nega”? De 55? Eu perdia todos os desafios, quando se tratava de música clássica, mas ganhava quase todas as perguntas de carnaval, mesmo porque muitos dos colegas não conheciam nada, por nunca terem brincado de carnaval, mãe e pai não deixavam. Então, saíam Cordão dos puxa-saco, (de 57?), Fanzoca do rádio, Mamãe eu quero, Daqui não saio, Sassaricando, Linda Morena, Touradas em Madrid. Decorara todas, nas chanchadas do Nacar, entrando pela porta de trás, na Geral, vendo o filme às avessas; casados que viravam solteiros, alianças trocadas, para ambos os lados da plateia. E lendo de trás pra frente, da direita para a esquerda.

Fanzoca do rádio, sabia por causa da vizinha de mãe, a que tinha o decote em forma de V, nas costas. Ela só vivia cantado e, quando o marido viajava para o Recife, ela pedia que trouxesse uma Revista do Rádio. Que eu, em troca de ir fazer algumas comprinhas pra ela, lá, venda da esquina, aproveitava e lia a Revista.

Mas nem todos meninos e rapazes gostavam de carnaval. Meu irmão, em Goiana e antes de ele entrar, também, para o seminário, chamava dois ou três amigos e iam, para a casa de um músico, que se iniciara na Saboeira (a antiga e centenária Banda Saboeira) e acabara de entrar na banda da PM, no Recife. A Saboeira e a Curica (outra banda centenária de minha cidade) se tornaram uma fonte de fornecimento de músicos para a Polícia e para a Orquestra da Rádio Jornal do Commercio, quando não era para a Band Jazz Acadêmica, onde pontificara Capiba. Este, por sua vez, tinha tocado violino ou piano, no cinema, de Campina Grande, acompanhando filmes mudos. Saxofonista exímio, o soldado Hamilton trazia as novidades dos ensaios do Derby para aqueles adolescentes e ensinava solfejo e letra de, nada mais que, Chega de Saudades.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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