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Cartas

Jurani Clementino. Publicado em 28 de junho de 2018 às 11:14

As mensagens começavam mais ou menos assim: “Nome da cidade, data, saudades”. Quando eram endereçadas para algum namorado que partiu em busca de emprego escrevia-se bem na parte superior da folha de papel pautado: “Meu amor, queria dizer que estou morrendo de saudades de você”. Os pais gostavam de abençoar os filhos, mesmo distantes então sempre existiam expressões do tipo: “Querido filho fulano de tal, que Deus te abençoe. Que Deus te proteja. Que Deus te faça feliz”. E assim, através de cartas feitas à mão, a comunicação entre os pequenos municípios brasileiros e o resto do país se deu por muitos e muitos anos. Como muita gente não sabia ler nem escrever convidava os que sabiam para redigir e traduzir as correspondências.

E dessa forma se construía uma lenta, mas eficaz, rede comunicacional entre os mais distantes pontos do país. Lembro que escrevi muitas cartas endereçadas à cidade de São Paulo. Ia carta, vinha carta. E se me chamavam pra escrever as mensagens antes de serem enviadas, quando elas chegavam eu era convocado novamente para ler tais correspondências. E se eu estivesse por ali e chegasse um conhecido, alguém logo dizia, “ei menino, vem ler a carta de novo pra fulano ouvir”. Às vezes eu lia e relia tanto aqueles manuscritos que acabava decorando o conteúdo daquelas correspondências familiares. Lembro que quando eram assuntos do universo privado tinha que ler em voz baixa e não se podia sair por ali comentando.

A comunicação através de cartas era um processo lento demais. O tempo estimado para essas correspondências chegarem ao destino, dependendo da distancia, podia demorar dez, quinze dias. Então podemos calcular que entre a mensagem enviada e a resposta podia se esperar um mês. As cartas levavam e traziam notícias do cotidiano como gravidez, colheita, nascimentos e/ou falecimento de pessoas conhecidas, demonstração de afeto, carinho, saudade, desejos de saúde e de um retorno próximo. Aos que acabaram de partir enviava-se cartas perguntando se a viagem tinha sido boa, aconselhando sobre essa nova vida na cidade e pedindo que voltassem logo. Entre os namorados, as cartas levavam e traziam juras de amor e votos de eterna fidelidade.

As correspondências ou chegavam pelos correios ou eram trazidas por algum portador conhecido (parente que ia ou voltava a São Paulo). Para reforçar a mensagem de que estava tudo bem, os migrantes enviavam fotografias ao lado de carros novos, ou em centros comerciais como a Avenida Paulista, por exemplo, longe dos precários espaços de moradia e, certamente, distante também dos sufocantes ambientes de trabalho deles. Ah, seguindo essa lógica de viajante vitorioso, colocava-se, ainda nos envelopes, cédulas de dinheiro para o destinatário.

Eram as correspondências feitas a base de caneta e papel, uma das formas de ”encurtar” a distância entre os que ficavam e os que partiam e manter os laços entre eles, provocando ainda o desejo de partir dos que ficavam, ou seja, estimulando o processo migratório. Não sei se as pessoas costumam ter o hábito de guardar essas correspondências. Gostaria muito de fazer um trabalho acadêmico sobre isso. Outro dia consultei minha avó, Dona Nenê, sobre as cartas que minhas tias enviavam de São Paulo, mas ela disse que não as tinha mais, havia jogado fora.

Se esse texto fosse uma daquelas antigas cartas, terminaria mais ou menos assim: “Na certeza de que vocês me entenderam e com a esperança de que todos estejam bem, me despeço desejando uma boa tarde a todos e rogando a Deus para que abençoe infinitamente a cada um. Um forte e verdadeiro abraço”.

Campina Grande 26 de junho de 2018

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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