Fechar

Fechar

Carta sobre Memorial do Dia Seguinte

Josemir Camilo. Publicado em 8 de maio de 2018 às 7:58

Prezada amiga goianense

Ando lendo um belo livro de documentos históricos. E isto não é pictórico (rima pobre, pobre poeta!) e você, na certa, quer saber do que se trata. “Memorial do Dia Seguinte. A revolução de 1817 em documentos da época” (CEPE, 2018) fala de uma coisa chata, para quem não navega em busca de Clio, águas de mares e rios (gostou desta rima?), como nossa cidade, banhada, eternamente, por águas correntes e águas salientes. Mas trata de um passado, em que homens revoltados com a falta de liberdade, quase como uma loucura, se entregaram ao enfrentamento armado, gosto e sabor de sangue e suor, lágrimas e odor. Fundaram uma República. Então, a mão cruel do Rei, com seu séquito de príncipes e princesas, duendes (melhor, doentes?) e fadas (também, fardas?), o rei (agora diminuto, pelos republicanos, cá estou eu) mandou, como se quisesse entrar num livro infantil de terror (e este rei não merecia um gibi!): “cortem-lhes as cabeças… as mãos…, os pés, esquartejem-nos (melhor que este “nos” o enquadrasse, reflexivo fosse).

Pois bem, a revolta de homens ricos, sim, porque eram ricos e exerciam tirania contra os pobres brancos e, maiormente, contra os negros; a revolta destes homens, necessária e (in)suficiente, não justificaria, hoje, a opressão que mantinham, mas justificam, como lideranças, contra um mal maior. No sonho de ser uma hidra, a revolta teve vários corações, um mais forte, outro, irmão e dois ou três, anêmicos, cortado o subsídio plasmático e democrático que os deveriam irrigar. E nossa cidade foi um desses corações. O livro trata, em parte, da perseguição do Rei das Fadas e Madrinhas, bonzinho Senhor Rei, Rei Nosso Senhor, Nosso Senhor é Jesus Cristo ou o Rei de plantão? Tanta leitura me leva a divagar, devagar.

Buscaram revolucionários em engenhos, que senhores se revoltaram contra impostos, até, para casamentos de principezinhos e princesinhas em seus cueiros. Pagava-se por bolachas e pólvora, por quintos e arráteis, braças e pés, entradas e partidas, incensos e velas, uso de arma no coldre e licença para sair da vila, para ir tomar banho no rosto, na praia, por recomendação médica. Postos que impostos, mereciam ser depostos (a amiga, na certa, detestou isto, ao ler). Agora, os revolucionários esmolambados, estropiados, são perseguidos a fio de espada e, até, mortos são exumados, para serem decapitados e decepadas as mãos. À glória de se autoproclamarem Patriotas, sucedeu-lhes o apelido do achincalhe, da humilhação, da violação de seus bens (e bens queridos, filhos e mulheres, mães e filhas), à violência carnal do Senhor Real (Perdão, por outra rima pobre – vício de idade).

É disso que o livro trata, embora especifique as ações de liberdade, de pensar, ações de inteligência, de luzes, para que os documentos se auto justifiquem da repressão virulenta, atanazada (para navegar, mais de perto, no ódio antigo, que, na palavra, não escolhe partido), que atingiu o velho burgo, a velha vila nossa, cara amiga e musa. Não faço como os demais que, por um exemplo de passado, quase único (e púnico, porque bélico) atribui uma coroa de glórias à cidade, sem lembrar que, em momentos parecidos, e recentes, a suposta cidadania, então invocada, tenha ficado ao lado do Falso Rei AI-5, exemplo seja. Não há piso, no passado, unicamente solo firme; o passo, que se há dado, pode pisar em falso, pois História não é lugar de confiança, é um lugar, eternamente, em (des)construção. Fitas brancas, como diziam os revolucionários, na Paraíba, cara amiga!

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube