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Carta de amor

Jurani Clementino. Publicado em 9 de junho de 2022 às 12:55

Meu aluno, de nome Luckas, recebeu, durante a minha aula de Laboratório de Introdução ao Jornalismo, uma cartinha feita à mão. Era uma correspondência com letras bem desenhadas, dentro de um envelope com remetente e destinatário, escrita cuidadosamente em folha de caderno com coraçõezinhos coloridos nas abas. Aquilo me chamou a atenção porque há muito tempo não testemunhava isso. Logo presumi que era uma cartinha de amor. Mas, atualmente os amores costumam ser líquidos em toda a sua essência. Efêmeros, fugazes, circulando pelas redes digitais, se familiarizando com o mundo virtual. Passeando entre os nós da rede e por entre nós, com a velocidade desse tempo louco. Para mim, escrever cartas com letras cursivas em papel em branco, era coisa do passado, de um tempo que antecedeu a esse momento pautado pela virtualização do ser e de suas relações. Há tempos que essas missivas viraram e-mails, foram substituídos por áudios ou textos impessoais enviados via WhatsApp. Para mim, cartas nesse formato era algo superado. Que ficara no passado. Sinônimo de poesia, de nostalgia, de melancolia. Coisa de romances como o de Romeu e Julieta. Memórias dos textos de Fernando Pessoa; “as cartas de amor são ridículas”.

E eu, que tanto li e escrevi cartas, para mim e para os outros, fui profundamente tocado por aquela correspondência sendo aberta nas mãos de Luckas. Carta, geralmente é uma comunicação privada entre duas pessoas. Mas meu aluno compartilhava o conteúdo daquele manuscrito com o amigo de turma que estava, ali na sala, sentado ao seu lado. Mesmo que esse amigo não estivesse lendo atentamente a missiva, a ideia era sentir a textura daquela folha de papel nas mãos. Era uma carta de amor, ou seria de paixão? Qualquer que fosse o conteúdo contido ali, era um sentimento transgressor de um menino por outro menino. A carta era assinada. Tinha o nome e sobrenome do remetente. Carregava os sentimentos de alguém: o gostar, o desejar, o querer bem. Isso é tudo o que sei. Tudo o que percebi.

Mas para mim, não importava o conteúdo, não interessava o remetente. A mensagem era a própria carta em si. Era o fato de que alguém, em pleno século XXI, escreveu, à mão, uma carta para outro alguém. Essa pessoa decidiu conversar à moda antiga. Revivendo (ou vivendo) a nostalgia do passado, mas celebrando a atemporalidade dos afetos. O maior poeta português de todos os tempos, Fernando Pessoa, dizia que as cartas de amor eram ridículas. Elas não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. E nossa geração também escreveu apaixonadamente cartas de amor, todas ridículas. A gente nem se dava conta de que eram cartas de amor, ridículas. Porque apenas aquelas criaturas que nunca escreveram cartas de amor, essas sim, eram todas ridículas.

Bethânia citando esse poema de Fernando Pessoa e interpretando a canção “Carta de Amor”, nos transporta para as mais diversas sensações que sentimos ao receber uma carta: Quando o carteiro chegou/E o meu nome gritou/Com uma carta na mão/Ante surpresa tão rude/Nem sei como pude/Chegar ao portão/Lendo o envelope bonito/O seu subscrito eu reconheci/A mesma caligrafia/Que me disse um dia: estou farto de ti/Porém não tive coragem de abrir a mensagem/Porque na incerteza/Eu meditava, dizia: será de alegria ou será de tristeza?/Quanta verdade tristonha ou mentira risonha/Uma carta nos traz/E assim pensando, rasguei sua carta e queimei/Para não sofrer mais.

Ler, reler, abraça-la contra o peito, guardar, esconder, procurar e encontrar para ter a estranha sensação de que havia perdido por um instante, ou simplesmente rasgar sem ao menos ler, como diz a canção acima, queimar, destruir. O fato é que as cartas carregam muito mais do que a mensagem nela escrita. Elas são a própria mensagem. Povoam e acionam as nossas sensações. Estendem o nosso corpo e a nossa sensorialidade. Que terá feito Luckas com aquela carta? O que terá aquela carta feito com Luckas?

Jurani Clementino
Campina Grande 31 de maio de 2022

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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