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Carregadores de luz

Jurani Clementino. Publicado em 12 de maio de 2017 às 18:41

Por Jurani Clementino (*)

Sou do tempo que nos sítios não tinha energia elétrica. E a gente improvisava candeeiros pra iluminar a escuridão da noite. Acendia fogueiras pra clarear o terreiro quando não era lua cheia. O terreiro era nossa escola. A natureza nossa professora. Aprendi as fases da lua assim. Claro que preferíamos a lua cheia. Nada daqueles ciclos invisíveis: minguante, crescente. O mês era dividido em quinze dias iluminados e quinze dias escuros. Bastava para nossa compreensão. Desenvolvi uma relação religiosa com a luz da lua. Ficava horas admirando o céu quando era noite de lua cheia. Achava um desperdício umas noites tão escuras e outras tão iluminadas. Mas não podia ir de encontro à natureza. Deus teria feito assim. Quem era eu pra definir essas fases.

No meu tempo se via TV com a energia gerada por baterias de caminhão. A televisão era em preto e branco. O aparelho só era ligado durante a exibição das novelas e/ou, no máximo para se ver um telejornal. Nada de desperdiçar energia. Comercial não tinha vez. Entrava o intervalo, desligava-se o botão. Foi assim que aprendi que o tempo dedicado aos comerciais variava entre três e cinco minutos. A bateria era recarregável. Durante o dia ela era abastecida. A noite consumida.

Tempos aqueles que pra se deslocar de uma casa a outra, em noites sem ua, carregávamos lampiões. Saímos pelas estradas escuras carregando luz. Éramos carregadores de luz. Existia uma longa distância entre o mundo iluminado e a parte escura. Entre o rural e o urbano. Entre a ideia de progresso e o arcaico. Dois mundos distantes que se conectavam pela luz da TV. Se aproximavam pela tecnologia, ainda que arcaicamente. Os sonhos de pertencer aquele outro mundo afloravam nas cabeças daqueles jovens. Muitos foram embora. Eu fiquei. Demorei partir, depois fui. Segui o destino praticamente irremediável a todos que ali viviam. Acho que até gostei. Mas sempre volto porque não tenho estrutura pra suportar a saudade de tudo que vivi ali. E mesmo não conseguindo, tento revivê-las.  Por hoje tá bom. Chega de nostalgia.

Campina Grande – maio de 2017

(*) Jornalista, Escritor, Professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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