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Carnaval Fora de Época

Noaldo Ribeiro. Publicado em 21 de fevereiro de 2018 às 17:12

Foto: Ascom

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Apesar de o título sugerir, este texto não é uma alusão, nem tampouco um apelo à volta da Micarande – antigo paraíso paraibano dos baianos e fonte de sustentação de sua indústria cultural.

Isto não significa repulsa ao Axé Music (hoje canonizado pelos papas da MPB, a exemplo de Gil e Caetano), nem muito menos uma declaração de guerra as Micaretas, principalmente quando realizadas em Feira de Santana e outras cidades baianas.

Contudo, seria muita falta de criatividade e exacerbação de mediocridade querer singularizar Campina Grande com este tipo de empreendimento festivo, tornando-o a sua flâmula de identidade.

O que se quer é provocar uma reflexão sobre as atuais manifestações de momo na cidade, realizados pela livre iniciativa dos foliões e suas possíveis perspectivas.

Os bons e velhos blocos, movidos a frevo, tem se apresentado como tendência dominante.

O Bloco da Saudade, mais que tudo, um verdadeiro espetáculo lírico, tem, ano a ano, recebido adesão crescente de artistas e brincantes.

O Ferro de Engomar, já em processo de profissionalização, também vem engrossando suas fileiras de alegria. Agrega a legião das antigas e, recebe, também velozmente, a “simpatia é quase amor” da mocidade estudantil.

Merecedor de igual registro, O Jacaré do Açude Velho, destaca-se por arrastar uma multidão de festeiros, além de postar-se com o firme propósito de recuperar o hábito de fazer o carnaval de época, vislumbrando o seu resgate.

Nitidamente localizado, o Bloco do Gordo constrói os seus caminhos da folia no Catolé e o velho Zé Pereira recebeu nova configuração no conteúdo, na estética e na alteração do seu percurso, transferindo seu desfile para a Avenida Manoel Tavares, corredor gastronômico da hora.

Dono de particularidades, mas ao mesmo tempo muito prestigiado pelo público, o Rubacão da Socorro promove uma espécie pós-carnaval, dado que toma conta das ruas, a partir do bairro do São José, a cada sábado subsequente da festa carnavalesca.

O mesmo ocorre com Os Imprensados (sai no dia seguinte ao Rubacão) ligados aos profissionais da mídia, embora a categoria não participe em peso, fato que é compensado pelos amantes do Axé. É curioso e alvissareiro embriões de folia que se formam nos bairros, exemplo de Santa Rosa e Cruzeiro.

Do todo aqui exposto, pode se concluir: a) As manifestações carnavalescas da cidade são majoritariamente agitadas pelo embalo do frevo e das marchinhas; b) Os blocos tendem, a partir do seu fortalecimento, a adotar uma postura profissionalizada (perfeitamente natural), quebrando o brincar por brincar, na medida em que se obriga a oferecer mecanismos de conforto e regras, não mais para brincantes, mas para visitantes e turistas (apenas excluindo, pelas suas singularidades, o Bloco da Saudade; c) Finalmente, cabe a quem de direito desenhar o perfil do carnaval que se quer.

Como aposentado do samba, do frevo e do maracatu, não se coloca para o autor deste texto a ousadia de organizar o carnaval. Seus atores, estes, sim, precisam analisar algumas questões.

Primeiro, conserva-se esse modelo disperso, redundando em hiatos de folia em determinados dias? Segundo, articula-se um calendário concentrado de forma a promover uma prévia carnavalesca com potencial para atrair, no mínimo gente de todo o Estado, a exemplo das Folias de Rua, da capital? Terceiro, se aposta na volta do carnaval de época, como sugere o Jacaré?

E as escolas de samba, o que dizer delas? Isto é assunto para os próximos capítulos.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

falecom@fhc.com.br

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