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Caras lavadas

Roberto Cavalcanti. Publicado em 8 de abril de 2019 às 11:11

Arquivo pessoal

Fiquei recentemente impactado com as imagens de um violento assalto em uma universidade de Campina Grande. Não apenas pelo drama vivido pelos que lá estavam, e já chocados com outras violências mundo afora, sentiram de forma apavorante.

Esse efeito não foi por conta do valor subtraído de forma tão violenta, já que por centenas de vezes lemos nos noticiários sobre repetidos episódios que revelam a temida e danosa insegurança. O que me chocou foi a cara lavada dos assaltantes.

Toda a ação foi registrada por câmeras – posteriormente repetida incessantemente -, sem que os criminosos demonstrassem preocupação em serem reconhecidos.

Nenhuma máscara, nenhum capacete ou descaracterização. Nenhum pudor com uma possível responsabilização penal pelo crime.

Fez-me lembrar o que está contido na literatura do cangaço, onde a indumentária, além de garantir que fossem reconhecidos, servia como demonstração das suas coragens.

Não havia anonimato no cangaço. Todos eram nominados. O esplendor de seus trajes era a forma de se destacarem.

Os que estavam naquele assalto em Campina Grande, munidos de pesadas e proibidas armas, pouco se importavam com as suas inevitáveis identificações. O que isso demonstra? Acho que é reflexo do que assistimos no nosso cotidiano.

É o mau exemplo recorrente, onde após um trabalho exaustivo de investigação, de pesquisa, de apuração e identificação dos crimes praticados, e da materialização das suas autorias, assistimos a cínicos desmentidos, rotineiros tanto em casos de crimes comuns como do colarinho branco.

O aparente desconhecimento dos fatos, as plantadas inocências… Nada e ninguém tem participação alguma naquilo que foi apurado. Aparecem de cara lavada, negando tudo.

Não raro, desconhecem até a existência dos fatos. Essa é a receita. Ou ainda: supostas denúncias teriam motivações políticas. Não foram ordenadores das decisões que proporcionaram os crimes.

Discute-se em que instância os crimes serão julgados considerando quem os praticou e não o que foi praticado.

Advém as prescrições, e por fim, se restar algo a ser pago perante a Justiça, ocorrerá sempre um pedido de liberdade a ser concedido por benesse da lei ou até mesmo por simuladas ocorrências de saúde ou alegações de insegurança.

Nos últimos tempos tenho tido esperança de que nosso País seja favorecido por um clima de minimização da impunidade. Mas, e os bandidos? Fazem essa projeção ou se espelham no quadro presente?

Existe uma inconcebível desestruturação do quadro de segurança em todos os Estados. É um mal nacional. Recentemente estive na China e pude constatar como estamos distantes de tudo o que é bom. Lá, o cidadão é protegido permanentemente por um sistema de monitoramento por câmeras, em todos os locais e por todas as horas. Em caso de crime, a prova garante a punição.

Um sistema de biometria facial permite identificação em tempo real. Se você se encontra no interior de um veículo em uma autoestrada, está sendo monitorado. Se saiu de um bar ou de uma igreja, também. Não é ficção, é realidade. Aqui, o despreparo é evidente. A tecnologia está disponível, mas o que impera entre nós é a impunidade consciente.

Aqueles bandidos sabem disso. E mais: que se identificados, condenados e presos, poderão requerer benefícios como indultos, pensões, casa, comida e roupa lavada por uns tempos. Nosso Brasil de hoje pune apenas os desempregados, que nada têm até partirem para a criminalidade.

Só assim entendo a desfaçatez dos criminosos de todos os níveis. Acompanhamos nas TVs o dia a dia brasileiro e o banditismo é irresistível. Não assistimos nada que revele obsessão por geração de empregos e busca da punição. Incentivamos uma nação de caras lavadas.

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Empresário e diretor da CNI.

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