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Cantorias de viola

Jurani Clementino. Publicado em 19 de maio de 2018.

Comecei a ouvir cantoria de viola ainda menino. Meu pai sempre ligava o rádio cedinho e sintonizava nos programas dos violeiros. Mas a primeira cantoria de pé de parede que assisti, foi na casa de seu Tico Leandro. Meninote ainda, nem sabia ao certo o que significava aquilo. Não entendia direito aquela espécie de ritual que mantinha dois homens de viola no peito, sentados lado a lado, com vozes empostadas e cantando versos improvisados… Nós não tínhamos aula de como era uma cantoria de viola. Simplesmente ela estava lá, acontecendo bem diante de nossos olhos.

Realizava-se geralmente na calçada ou no alpendre da casa. Os convidados sentavam bem próximo aos cantadores. Entre o publico e os artistas, ficava um banquinho, em cima dele uma bandeja. Era nessa bandeja que as pessoas depositavam notas de dinheiro em espécie. Aquele dinheiro somado ajudava a pagar o trabalho daqueles cantadores. Mas o que mais me chamava a atenção era a inteligência dos violeiros. Aquilo não tinha preço. Eles pareciam tomados por uma força sobrenatural e olhando para cima, como quem recebe um milagre do céu, produziam versos instantâneos. Era para o infinito que os poetas direcionavam o olhar, abandonando toda a multidão em volta.

As pessoas observavam boquiabertas, mas também estimulavam os cantadores sugerindo temas para suas improvisações, contando causos para serem transformados em versos e dando os chamados motes para os repentistas desenvolverem. Você dizia algo do tipo: “Cantador que me enfrenta em cantoria, adoece desiste e vai embora” e cabiam aos poetas desenvolver o resto. O publico também aplaudia, quando os violeiros desafiavam um ao outro. Criavam torcidas e iam botando fogo na briga. Eles se digladiavam em versos. Toda boa cantora tinha que ter esses desafios entre os repentistas.

E todo bom cantador de viola conhecia Tico Leandro do Queixada. Ele era uma figura de presença constante em Festivais de Violeiros e promovia animadas e disputadas cantorias na comunidade rural onde residia. Duelos entre Moacir Laurentino, Zé Cardoso, Zé viola, Valdir Teles, Sebastião da Silva, entre outros, aconteciam anualmente na casa de Tico. Patrono de uma família numerosa – uma dezena de filhos que aos poucos foi se espalhando pelo Brasil – as “festanças de viola” da casa de Tico, serviam como oportunidade para (re)unir os que distante habitavam. Era um momento também de confraternizar com os moradores das redondezas. Tico Leandro era um ativista cultural nato. Incentivou e reuniu em sua casa expoentes da cultura nordestina. Os cantadores deveriam erguer uma estátua em homenagem à memória e ao esforço desmedido de Tico em manter a continuidade de uma cultura, uma tradição, atualmente, pouco valorizada e reconhecida pelas novas gerações.

Em agosto de 2010, quando tico Leandro, fora vencido pelas complicações de saúde decorrentes de um Acidente Vascular Cerebral, a cantoria vestiu-se de luto. Ausentava-se de nossa presença, um grande paladino das tradicionais e quase extintas cantorias de pé de parede. Mesmo sabendo que seus dias estavam terminando por ali, Tico Leandro planejava uma nova cantoria para o mês de dezembro daquele ano. Esperava, quem sabe, pela última vez, reunir os filhos, confraternizar com os amigos, promover silenciosamente uma última despedida. Não foi possível. A morte atrapalhou os seus planos.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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