...

Campina Grande - PB

Campina em 1817

16/03/2017 às 10:34

Fonte: Da Redação

Por Josemir Camilo de Melo (*)

A Paraíba teve um importante papel nas antecipações das ideias republicanas no Brasil, pois seguia de perto o que acontecia na vizinha capitania do sul, Pernambuco. Se lá estourou uma revolução em 1817, seus respingos vieram bater na terra dos Tabajara, Potiguara e Cariri. É sabido, através do historiador Irineu Pinto, que mais de 100 tabajaras se ofereceram com arco e flecha, para defender a Revolução. A Paraíba respondeu a Pernambuco não por uma imitação, ou porque a capitania estivesse cheia de senhores de engenho, fazendeiros, padres e militares de Pernambuco, enviados durante 300 anos do colonialismo português; mas por sentir na pele as restrições políticas e a exploração da riqueza, através de pesados impostos.

Além da capital, estiveram envolvidas, na Revolução de 1817, as vilas de Mamanguape, Pilar, Itabaiana, Campina Grande, Pombal e Sousa, Bahia da Traição, bem como Alagoa Nova, e Cabedelo (por causa da fortaleza). Sobre Campina Grande, o relato do historiador Elpídio de Almeida é um resgate possível das ocorrências. Campina não chegaria a 3.000 habitantes, tomando como base o ano de 1804, quando Epaminondas Câmara diz que tinha 2.443 habitantes.

Se a revolução estourou em 6 de março, no Recife, a capital da Paraíba só veio a se revolucionar no dia 13 para 14, ao mesmo tempo que a notícia tinha chegado a Pilar, Itabaiana e Campina. Os liberais paraibanos se orgulhavam do padre Arruda Câmara, de Pombal, cientista e grande pensador, o cérebro da revolução, que fundara o Areópago de Itambé, onde se discutiam-se ideias liberais, uma pré-loja maçônica. Infelizmente, faleceu em 1810.

Itabaiana foi o primeiro lugar a se levantar em armas, depois a vila do Pilar, com o padre Antônio Pereira de Albuquerque, primo e amigo do padre João Ribeiro Pessoa, (e este, discípulo de Arruda Câmara e líder revolucionário). A Revolução, no início, consistia em tomar o poder na capital, onde estavam as instituições repressoras portuguesas. Por isso, as vilas mandavam tropas para lá. Os líderes, lá, foram os pernambucanos, militares, Amaro Gomes Coutinho (os pernambucanos dizem que ele é de lá) e Estêvão Carneiro da Cunha, e o paraibano José Xavier Peregrino de Carvalho, com 19 anos.

Segundo Elpídio de Almeida, Campina Grande se dividiu, parte a favor do movimento, orientada pelo vigário da freguesia, o padre pernambucano, Virgínio Rodrigues Campelo que foi “a alma da propaganda republicana na então Vila Nova da Rainha (com) o seu prestimoso coadjutor José Gonçalves Ourique. A outra parte permaneceu fiel ao governo real, sob a direção do coronel José Antônio Vila Seca, do sargento-mor Paulo de Araújo Soares, do capitão-mor Inácio de Barros Leira, e do professor João Gomes Barbosa”.

Epaminondas Câmara diz que o vigário e seu coadjutor promoveram, em frente ao pelourinho (diante do recém-inaugurado prédio da Câmara e cadeia (1814) – atual Museu Histórico) manifestações ostensivas revolucionárias, junto com o capitão-mor José Nunes Vianna. Enquanto isto, saiu de Campina, Paulo de Araújo Soares com 400 homens para combater os revolucionários do Pilar, e 200 homens foram mandados para “reforçar a contrarrevolução em Areia, sob o comando do capitão-mor Sebastião Nobre de Almeida e seu filho de igual nome”. Tudo isto só durou até 6 de maio; em Campina, com a prisão do Pe. Virgílio Campelo, como no resto da Paraíba, a República capitulava. Durou o governo republicano, na Paraíba, 55 dias.

Os revolucionários foram presos e enviados para o Recife e depois para a Bahia. De Campina, foram presos o padre Antônio Pereira de Albuquerque e Melo, o tenente-coronel de milícias João Morais (Martins, segundo Pinto) Torres (de Alagoa Nova), mas residente em Campina, que morreu na prisão, no Recife. O Padre Leonardo José Ribeiro e o capitão José Nunes Vianna foram libertados, depois. Por ironia, José Nunes Vianna, que recuara de suas posições republicanas, terminou por ajudar os realistas, negando sua participação e até testemunhando contra revolucionários, sendo solto e nomeado para tomar conta dos bens confiscados do vigário Virgínio Campelo.

No entanto, mais irônico, ainda, o Padre Virgínio, e seu coadjutor que escaparam da pena de morte, mas mofaram nas prisões da Bahia, até 1821. O vigário, condenado a 10 anos de degredo em Angola, foi, não só, solto devido à Revolta Constitucionalista em Portugal, mas eleito pelos paraibanos a Deputado às Cortes de Lisboa. Com a Independência do Brasil, foi eleito nosso deputado constituinte.

No geral da Revolução Nordestina (Padre João Ribeiro, em carta, reconhecia que a República devia ser regional) foram 14 os condenados à morte, sendo 5 sacerdotes, entre eles, o padre Antônio Pereira de Albuquerque Melo, e padre Inácio Leopoldo de Albuquerque Maranhão, cuja cabeça e mãos ficaram expostas durante muito tempo, no Pilar. Da capital, três foram enforcados, sendo um militar mineiro, Francisco José da Silveira e os paraibanos, o maior líder na Paraíba, Amaro Gomes Coutinho, e o jovem José Peregrino Xavier de Carvalho. Os três corpos foram mutilados, cabeças e mãos expostas na capital paraibana. Em Pernambuco, o líder, padre João Ribeiro Pessoa de Melo, suicidou-se, mas os realistas o exumaram e cortaram cabeça e mãos, e as expuseram em Goiana. Teve a República, no Recife, 75 dias de existência. E até o irmão de José Bonifácio, o revolucionário, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade, ouvidor de Olinda, mofou na cadeia, na Bahia, até 1821.

(*) Professor, historiador

 

Veja também

Comentários