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Campina dos Largos (e becos)

Josemir Camilo. Publicado em 1 de agosto de 2016 às 22:19

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Por Josemir Camilo

Ao ser solicitado para uma entrevista sobre a história da principal e maior avenida de Campina Grande, busquei um recorte que muito me agrada, a de um passado que me faz tão campinense, como faz forasteiros, campinenses natos, pois história é um território apátrida, enquanto que memória é nossa pátria. Ou seja, os últimos respiros de uma cidade, embora parcamente, uma cidade portuguesa, os anos 1930 e 40. Seria até demais, dizer que este apagamento de cidade portuguesa teve seu limite de realidade e memória na homenagem prestada pela comunidade lusitana, em Campina Grande, com a construção, em 1947, do monumento em homenagem a Teodósio de Oliveira Ledo. Ali, o passado virava memória, deixara de existir.

Não que a cidade tivesse, em algum momento, sido planejada. Como quase a totalidade das cidades brasileiras, o acaso prevaleceu, com poucas exceções de Belo Horizonte e Fortaleza, por exemplo. Mas como uma cidade que vivenciara o período do colonialismo, como povoado e, depois, como Vila, qualquer que seja a cidade histórica ela é fruto de um imaginário espacial. Diz-se, para a época, uma cidade barroca: a igreja, a praça e os três poderes. Em muitos lugares, a praça deu lugar a uma avenida larga e reta; em outros, a apenas a um largo. É até incompreensível a situação de Areia, no quadro desse imaginário, ficando o largo ao lado. O caso de Campina não gerou uma praça, nem uma avenida, mas um largo, e pequeno quanto à frente da igreja, que é o lócus do exercício de Poder. A praça ficou ao lado, com o nome de largo: Largo da Matriz. É que no quadrado que deveria haver, frente à igreja, e por esta ter sido construída no cocuruto de uma colina, a geografia lhe podou este imaginário. No entanto, para compensar a falta de uma praça barroca, do lado contrário à igreja, se instalou o outro Poder, o temporal, através de duas instituições, Câmara de Vereadores e Júri (com cadeia). No século XIX, o Paço Municipal foi construído ao lado da igreja matriz e demolido pelo modernismo em 1842. O imaginário, capengamente, estava reestabelecido e o rebanho teria seu espaço, pequeno, pois, mas seu redil.

Na hierarquia do espaço urbano vinham as ruas e, em seguida, os becos, ou travessas (Travessa da Luz). Hoje, o topo da hierarquia é para avenida, no geral. Quantos becos a cidade tem? E seus nomes de batismo? Nada de cidadania oficiosa, mas a popular, a dos cacetes, do mijo, da arte e lugar de esfolar bode, do açúcar, e até outros, derivados, talvez, de construtores, beco Lindolfo Montenegro. Não se tinha favela, tinha-se, beco, ponta de rua, rabo da gata, e Paus Grandes, ou até, distante, Pau do Choro. E ranchos, onde se embocava. As atividades de ofício e aprendiz pareciam ditar, como um costume que viera de longe, os nomes ainda não emplacados pelos Concelhos (esta instituição portuguesa, não a tivemos) Conselhos, Câmaras e Intendências, Prefeitura.

Os largos, antes da urbanização modernista do século XX, fazem parte de um imaginário de poder, tanto da igreja, quanto do Poder temporal, para o ajuntamento das massas; procissões e missas campais, ou convocação à leitura de bandos e outras ordens públicas, bem como festas cívicas, ou religiosas. À medida que alguns prefeitos conseguem algum superávit para tocar as obras, estes largos, descalços e com árvores, às vezes, recebem calçamento, ordenamento (como Vergniaud impôs ao Largo da Matriz) e viram avenidas, ou praças, como o Largo da Cadeia virou Praça Clementino Procópio e o Largo do Rosário virou Praça da Bandeira. Outros largos, na cidade, despareceram como o que havia em frente ao Pavilhão Epitácio Pessoa, que virara praça, por um tempo e, por fim, o largo foi fechado com o ordenamento da rua Monsenhor Salles e da Maciel Pinheiro

Com o progresso, como se dizia à época, os largos foram desaparecendo, o da Matriz, o do Rosário (dos Pretos), o da Independência (Praça Epitácio Pessoa); o das Boninas, mantido, mas agora praça; o da Pça Antônio Pessoa (antes, largo?) e o do Relógio (hoje, João Rique – mas, antigamente, jardim João Suassuna, diz o cronista Epaminondas Câmara, e praça João Pessoa, este que foi destituído daí, para uma sub-serventia na praça do tio, Antônio Pessoa). A cidade passava a ser dos carros, mas não na mesma velocidade.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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