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Campina, capital de República?

Josemir Camilo. Publicado em 30 de março de 2017 às 23:23

Por Josemir Camilo

Parece estranho, mas possivelmente a região de Campina Grande e seu entorno fizeram parte dos sonhos republicanos dos revolucionários de 1817. E a ideia não partiu de nenhum paraibano e, muito pelo, contrário, de um pernambucano, o Padre João Ribeiro Pessoa. A correspondência está reproduzida no clássico História da Paraíba, de Irineu Ferreira Pinto. Esse padre fazia parte da primeira experiência republicana nos trópicos brasileiros, antes mesmo do filho do Rei gritar ‘Independência’. Para animar o governo republicano da Paraíba, o padre, que era natural de Tracunhaém, mas tinha parentesco em Goiana, escreveu uma carta histórica, datada de 30 de março de 1817, aos membros do Diretório Republicano da Paraíba, na pessoa do vigário do Pilar, o padre, Antônio Pereira e o revolucionário, Ignacio Leopoldo.

Pedia o padre João Ribeiro, para que o governo da Paraíba não tomasse atitudes republicanas isoladamente porque “A Paraíba é tão vizinha de Pernambuco, os hábitos e costumes dos seus habitantes são tão semelhantes, que as leis, que convierem a uma, convirão necessariamente a outra; o terreno da beira-mar de ambas as Províncias dão as mesmas produções; o médio, as mesmas, que são gado e algodões: que precipitação tem, pois, sido a vossa em promulgar tantos decretos? Ao menos se nos consultásseis!” E aconselhava, depois de mostrar os medalhões revolucionários, entre eles, um irmão de José Bonifácio, do seu governo, e que “a vista destes nomes posso, sem ofender a modéstia, dizer, que esse governo (o da Paraíba) melhor faria, copiando-nos do que inventando precipitadamente, em risco de errar”.

O Padre João Ribeiro tanto elogia, como bate forte. Apoiava os revolucionários da Paraíba em abolir a Ouvidoria monarquista, mas condenava a abolição das Câmaras, o que lhe parecia ser um absurdo. E exortava: “Se houver de haver mudanças sobre isso, será quando se convocar o Congresso Geral e si fizer a Constituição: em que ou ficaram as Câmaras, ou coisa idêntica, ainda que tenha outro nome. Se vós não tivésseis feito isto por mera ignorância, deveríeis ter sido apunhalados pelo povo da Paraíba; no dia em que promulgastes tão horrível lei”.

Concordava em acabar com as patentes portuguesas, as insígnias Reais e com a convocação ao serviço militar por cinco anos. Elogiava a abolição dos impostos portugueses, sobre carne fresca, lojas e tavernas, embarcações, mas lembrava que uma revolução não se sustenta sem dinheiro para a tropa e para a guerra. A mesma crítica sobre a abolição dos direitos da alfândega, entre as nações estrangeiras, reduzindo à metade e perguntava: com que dinheiro se pretende sustentar as tropas da Paraíba? E com medo que a queda dos impostos atraísse estrangeiros para a Paraíba, com uma pontinha de ciúme, nos parece, advertia que “os cidadãos da Paraíba devem cuidar tão comente na defesa de suas pessoas, e não em aumentar por ora, a cidade, porque não nos convém tê-las muito grandes à beira-mar: Mas seu ponto de vista era estratégico “eu quisera ver estes três bairros do Recife, distantes um dos outros 30 léguas, espalhadas pelo interior”

Econômico, o padre criticava salários altos para os membros do governo revolucionário, pois se devia pensar em ter tropas e armas para sustentar a revolução. E no quesito de se proibir criação de gado na zona canavieira, ganhando assim, talvez, os latifundiários, apoiava a Junta paraibana, nesse ponto.

No entanto, quando a Junta perdoava metade dos direitos da exportação do algodão, o Padre João Ribeiro parece se munir de uma ciumeira e escreve: “Eis outra vez a balda de querer fazer da Paraíba uma grande cidade antes de estar decidida a questão de quem ela será (republicanos ou monarquistas); não era melhor a medida já proposta por este Governo, de haver aqui quem receba esses direitos por conta da Paraíba”. O padre parece perder a calma a respeito do pau brasil, explodindo a frase: “Esta Lei foi feita de um murro, perdoai-me a expressão!” Em seguida, com paciência, tenta mostrar a fórmula com que todos lucrarão, que não se deveria cobrar impostos sobre o pau brasil e dizia que Pernambuco ia restituir “o pau brasil aos donos das terras que o cultivam, pagando um direito de exportação que o Estado lucra e lucra o proprietário; esperai por ela para então revogares esta”.

Finaliza, pleiteando uma consciência política de se criar uma República regional (Nordestina, hoje): “segundo penso o nosso governo (…) me confirma na opinião, de que Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará devem formar uma só República, devendo edificar uma cidade central, para capital (negrito, nosso) (…) estas Províncias estão tão compenetradas e ligadas em identidade e de interesses, e relações que não se podem separar; e para que não penseis, que digo isto afim de engrandecer Pernambuco, sujeitando-lhe as outras províncias, proponho, como condição essencial, o levantamento de uma cidade central, que pelo menos diste 30 a 40 léguas da costa do mar, para residência do Congresso e do Governo; um obstáculo acho eu, que é em semelhante distância e proporção um local fértil, sadio e abundante de boas águas para semelhante fundação; e cumpria, que esta capital fosse na Paraíba”.

O padre não teve tempo de ver sucesso algum. Derrotado, como guerrilheiro fugiu e se suicidou. A vingança lhe foi maldita, tendo cabeça e mãos cortadas, depois de desenterrado, e expostas em Goiana, as mãos, a cabeça, em Itamaracá. Completando o rosário de carnificina da monarquia, as cabeças e mãos expostas, no Pilar (dos que receberam a carta do padre), na cidade da Paraíba (Amaro Coutinho, o Silveira, e Peregrino de Carvalho), em Itamaracá (Padre Tenório) e, ainda outros, no Recife.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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