Fechar

Fechar

Campina, a 47ª cidade mais violenta do mundo?

Josemir Camilo. Publicado em 8 de junho de 2018 às 11:38

Ou, como se constrói uma ideologia.

Diariamente, me sento na Praça da Bandeira, depois de um cafezinho e fico olhando o movimento. Acho agradabilíssimo, vejo qualidade de vida, que não vejo mais nas ruas recifenses. O suspense, lá, é a tônica. Você nunca sabe o que pode ocorrer de repente, se um arrastão, um assalto. Você passa a desconfiar de todos; ônibus lotado e, às vezes, galeras de times trocando insultos, gente subindo pela janela, ‘amorcegando’, se dizia. Não vejo nada disto nas ruas de Campina, a não ser na Praça Clementino Procópio, uma gente que vive e dorme por lá, alguns bebuns e um ou outro que usa o ponto de ônibus, sempre sem policiais, para tomar celulares de mulheres e adolescentes, ou dentro daqueles banheiros fétidos, onde já me assaltaram. Mas, no resto do centro, vejo, ainda, certa tranquilidade, certa e gostosa lentidão, principalmente, no clima gostoso do outono.

Mas, de repente, não mais que de repente (lembrando o poeta), sou assaltado por uma notícia nas redes, de que vivo na perigosíssima 47ª cidade mais violenta do mundo. É! do mundo! É que, segundo os estatísticos, das 50 cidades mapeadas, por violência, pelo The Daily Mail, de Londres (http://i.dailymail.co.uk), 17 são brasileiras. Destas, 11 estão (ou estariam) no Nordeste, ou seja, as capitais (menos São Luís), mais Feira de Santana, Vitória da Conquista e Campina Grande. O que chama a atenção é que, no entanto, só Campos (RJ) e Porto Alegre é que entram do Su(l)deste. Estranha maneira de avaliar o que é violência. Pela vida Severina, de bala pássara (provavelmente), em primeiro vem Natal, depois Fortaleza e em seguida, Vitória da Conquista, Maceió, Aracaju, Feira de Santana, Recife (22º), Salvador, João Pessoa (30º), Campina Grande (47º) e Teresina. Do Norte entrariam apenas três: Belém, Manaus, Macapá.

O mapa do país é feio, tenebroso. Diz a reportagem “Em um ano, 171 pessoas morreram por dia, em média, no Brasil vítimas de homicídio. Foram 62.517 mortes violentas intencionais em 2016, segundo o Atlas da Violência 2018, que traz dados do Ministério da Saúde”. O que equivale, segundo a notícia, a um avião caindo todos os dias (https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/06/05/e-um-aviao-caindo-todos-os-dias-e-isso-nao-gera-comocao-diz-especialista-em-seguranca.htm?cmpid=copiaecola).

O cálculo é baseado em 30,3 homicídios, para uma população de 100.000 habitantes, por ano. Por isso, é mais fácil entrar uma cidade de porte médio do que uma capital, como o Rio, de mais de 6 milhões de habitantes. Mas, estes números frios, isolados de uma contextualização e considerados, unicamente, de homicídios, não corroboram o clima, no geral, em que vivem as cidades de porte médio. Não só não há especificação da cartografia do crime, em si, como não há outros indícios de violências, como arrastão, assaltos pessoais, como a bancos e carros fortes, roubos e furtos, chacinas (que deveriam ter outro índice), pancadarias generalizadas, guerras de torcidas etc, o que, em conjunto, elevariam o caráter e o conceito de violência dos grandes centros. Isto, talvez, mostrasse outro índice. Ao mesmo tempo, uma avaliação de qualidade de vida contrabalançaria esta matemática cega?

Aí, fico pensando: e o Rio de Janeiro: em estado de guerra? É incrível como conseguem tirar o Rio, desta estatística. Fake? Exercícios de pura matemática, ou práticas de um discurso excludente, com suposta base científica?

A um turista ingênuo, leitor daquelas informações, ele diria: “Não vou ver as festas de São João, no Nordeste, que as cidades são muito violentas! Como o Rio e São Paulo não estão nesta lista, são confiáveis. Malas, pra que te quero!?”

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

[email protected]

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube