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Bullying

Jurani Clementino. Publicado em 20 de janeiro de 2018 às 11:39

Por Jurani Clementino (*)

Estudei toda a minha vida em escola pública. Quer dizer, teve um único ano que fui aluno de uma instituição privada. Um dos melhores colégios da cidade. Não que tivesse condições financeiras de pagar as mensalidades, mas como acharam que eu era um bom aluno trataram de arrumar uma bolsa de estudos pra mim. Então eu fui. Não lembro direito se foi em 1995 ou 1996. Continuava morando no sítio. Ia e voltava todos os dias. Saia de casa por volta das quatro e meia da madrugada e tomava um carro de linha, desses de passageiros, as seis da manha, no sítio Jatobá. Andava uns quatro quilômetros a pé até o local onde o carro nos esperava. Era eu e um primo meu. Cursávamos a sexta série do Ensino Fundamental. Foi um dos piores anos da minha vida. Nunca havia pensado em desistir dos estudos, mas naquele ano, pensei. Vou explicar.

Além das dificuldades em chegar à escola por conta da distância e do transporte que a gente chamava de “A fubica de seu Raimundo Soares”, era no ambiente escolar que as coisas também se faziam difíceis. Eu nunca tinha ouvido falar sobre bullying, mas reconhecia que aqueles atos repetitivos e intencionais de violência psicológica não era algo normal. Existia ali uma relação desigual de poder. Tínhamos todas as qualidades ou defeitos necessários para ser vítima de bullying: éramos baixinhos, feinhos, desprovidos de qualquer vaidade, morávamos no sítio e sempre chegávamos à escola atrasados. Porque ao desembarcarmos, no centro da cidade, ainda tínhamos que mudar a roupa (muitas vezes encharcada com a água da chuva) pra poder seguir até a escola. Quem nos dava abrigo, compadecida com essa situação era Dona Antônia de Chicô. Uma senhora bondosa que, vendo nosso sacrifico, passou a fazer comida pra gente. Então saíamos da escola, quando dava tempo almoçávamos e tomávamos o caminho de volta. Tudo isso tinha que ser até meio dia. Porque às 12 horas, em ponto, a “Fubica de seu Raimundo” deixava a cidade. Quando a aula demorava e não dava tempo almoçar, algumas senhorinhas da feira, que andavam no carro, nos davam tomates ou frutas e a gente comia ali mesmo, na carroceria da caminhonete. Era um carro movido a gás butano. Perdia forças nas ladeiras. Teve um dia que o pneu traseiro se desprendeu bem na descida da ladeira da Caatinga Grande, enquanto a carroceria quase encostava no asfalto, para o desespero de todos, o pneu passou na frente do carro. Todo mundo gritando em desespero.

Bom, mas voltamos à escola, aos colegas e ao bullying. Não sei por quais motivos nos apelidaram de chacalaka e chacarrua. Era uma tortura ouvir aquilo. Porque como se não bastassemos desconhecer o sentido daquelas palavras estranhas, tínhamos que ouvir todo mundo rir da gente. Ou seja, pra eles aquilo tinha sentido. Além disso, não sei porque cargas d’água a minha bolsa nunca era paga. E todo mês, um funcionário da escola ia na sala cobrar. Falava meu nome completo e dizia: “a mensalidade tá atrasada”. E eu que, embora não devesse nada, tinha o nome escancarado pra toda a sala. E como se desgraça pouca fosse bobagem, uma professora percebendo que a gente era baixinho, raquítico e cabeçudo, resolveu nos chamar, publicamente, de “os caiçaras”, uma clara referência pejorativa, equivocada e preconceituosa para com uma comunidade conhecida no município por ter pessoas de baixa estatura.

Aquele foi o mais longo ano da minha vida. Recordo claramente que, no último dia de aula, sai da escola e fui direto a Igreja Matriz da cidade, me ajoelhei diante da imagem de São Raimundo Nonato e disse: nunca mais quero passar por isso. Dias depois fui informado que, tanto eu, quanto meu primo, tínhamos sido eleitos “alunos estrelas”, uma honraria oferecida aos estudantes de destaque todo final de ano. Não voltei para receber o título. Não guardo rancor. Não culpo a escola, os alunos, nem os professores, alguns continuam meus amigos até hoje. Mas ali experimentei o bullying ainda sem saber da sua existência.

(*) Jornalista, escritor, professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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