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Borrar o passado?

Flávio Romero. Publicado em 13 de setembro de 2016 às 7:53

Foto: AscomPor Flavio Romero*

Nas Ciências, a denominada história oral de vida é uma dos métodos que compõem o campo da pesquisa qualitativa, que tem como objeto o estudo dos significados e dos sentidos das ações e das relações entre os sujeitos (indivíduos) ou grupos. A história de vida, portanto, analisa a interfase entre a vida na dimensão subjetiva (individual) e o contexto social.

No cotidiano, longe do rigor metodológico do mundo acadêmico, comumente ouvimos as pessoas falarem sobre as suas próprias histórias de vida ou sobre as histórias de vida das demais pessoas, com ênfase nos aspectos profissionais, afetivos, familiares, entre outros.

Nos últimos dias, tenho refletido bastante sobre este tema: a singular história de vida das pessoas.

Inicialmente, surgem na minha reflexão algumas perguntas (quase filosóficas):

– Será que cada pessoa tem sua própria história de vida?

– Será que não temos várias histórias de vida ao longo na nossa caminhada existencial?

Não ouso responder de forma peremptória estes questionamentos. Penso, inclusive, que a nossa história de vida é resultante de um conjunto de capítulos que se sucedem (ou se intercruzam, dinamicamente).

Alguns destes capítulos são tão inusitados e tão distanciados dos demais, que pensamos que se trata do prólogo de uma nova história.

Outros capítulos, por vezes, são tão conclusivos, que imaginamos que representam o epílogo da história das nossas vidas.

No filme americano, lançado em 2003, intitulado: “Grande menina, pequena mulher”, dirigido por Boaz Yakin, selecionei uma frase, pincelada de um contexto de tantas outras frases emblemáticas, por ter uma relação mais direta com a presente reflexão, a saber:

– “Toda história tem um fim, mas na vida cada final é um novo começo!”.

Esta frase se encaixa, perfeitamente, no que penso:

A vida permite sempre um recomeço.

Também é comum se ouvir:

– “já virei a última página desta história”;

– “essa história ficou no passado”;

– “é um capítulo da minha história que quero esquecer”;

– “vivo sem permitir que nada da minha história passada interfira no presente”.

É realmente possível deixar num lugar insondável do passado as histórias vividas de tal forma que elas jamais interfiram nas histórias do presente?

Responder ao questionamento de forma afirmativa seria admitir a existência de uma potente borracha do destino, capaz de apagar da tela das nossas memórias os fatos que compõem o acervo acumulado das experiências vivenciais.

Assim, o passado jamais se apaga.

Não seria o presente o passado ressignificado?

Talvez, numa dedução mais radical, se poderia dizer que não existem histórias de vidas integramente novas. Ou seja, desapegadas dos vínculos com o pretérito.

Por vezes, esse passado tem corpo e alma. É um passado que se faz carne para coabitar no mesmo espaço do nosso presente. É um corpo e uma alma testificando um passado que não pode ser esquecido.

Portanto, o que é novo numa história que tem passado?

Novo é o tempo presente, que sempre permite recomeços.

Fernando Pessoa, considerado o mais destacado poeta português, ao se referir ao tema da presente reflexão, assim se expressou:

– “O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto”.

Portanto, ainda que se vire a página para que a história continue, há um texto que não se apaga – o texto que está escrito nas páginas do pretérito.

De forma lúcida e profunda, o escritor português corrobora com o meu pensamento:

Mesmo virando a página, a história continua, por meio de novos textos (ou contextos?).

Portanto, é um engano tentar se apropriar da história presente tentando negar o passado. Há no arquivo das nossas memórias um acervo de tudo que vivemos no pretérito, inclusive os dramas e as comédias que protagonizamos no palco da vida.

É comum nos relacionamentos afetivos este tipo de comportamento.

Num mundo marcado por relacionamentos afetivos cada vez menos perenes e mais descartáveis, é bastante frequente essa atitude impositiva:

– “Agora você está comigo. Esqueça o passado!”.

Mas, a que passado se refere?

Como esquecer o passado se ele faz parte dos acervos mais profundos da nossa alma?

Quais os dramas e as comédias vividas no tempo pretérito que podem ser olvidados como condição para que encenemos novas tramas no palco da vida?

É ledo engano imaginar que se começa uma nova história, borrando os textos escritos no passado.

Certamente, penso que é uma atitude de extremo egoísmo alguém cobrar do (a) outro (a) que esqueça o passado para viver o presente.

Muitos já fazem um esforço tremendo para ocultar no baú das recordações, fatos que marcaram o passado e que não desejam relembrar.

Repentinamente, vem alguém e impõe o esquecimento do passado como condição para construir o presente.

Isso é egoísmo puro!

Neste sentido, afirma Oscar Wilde que o “egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos”.

Ou seja, antes de impor ao (à) outro (a) que esqueça o passado, não seria prudente que quem propõe o esqueça, primeiramente?

Para manter uma nova relação, algumas pessoas até tentam passar a imagem de que esqueceram o passado. No mundo do aparente, exteriorizado aos olhos do mundo, esse suposto esquecimento do passado pode até existir. Entretanto, no mundo insondável, as reminiscências estão fortemente marcadas e latentes, de tal forma que se conservam como cicatrizes na alma.

E você, acha que é possível borrar o passado em função de uma nova história que se escreve no presente?

(*) Professor

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Flávio Romero

* Educador.

falecom@fhc.com.br

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