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Blitz…

Jurani Clementino. Publicado em 6 de fevereiro de 2017 às 10:36

Por Jurani Clementino (*)

 Eu sempre tive medo de blitz. Sim, daqueles homens fardados mandando os veículos pararem no acostamento. É um medo que precede à minha condição de motorista. Nem dirigia ainda, mas mesmo no banco do passageiro me tremia todo ao se aproximar das antigas “manzuá”. Era como se estivesse encontrando um inimigo cruel. Acho que são resquícios do que li sobre a Ditadura Militar. Medo de parar numa blitz e desaparecer. Ninguém mais ter notícias. Polícia que mete medo. Nem assaltante me assustava tanto. Na verdade nunca temi um assalto e já me assaltaram duas vezes. Um desses assaltantes foi até camarada comigo. Em outro texto, publicado aqui, compartilhei essa experiência. Mas hoje quero falar sobre blitz. Sentei aqui pra isso. Vim dizer que não sei explicar esse trauma que tenho desses homens fardados. Há também uma contradição em tudo isso.

Sou habilitado há dez anos. Lembro que quando comprei o carro e fiz minha primeira viagem, como motorista, até o Ceará, desejei ser parado pela PRF. Eu queria que eles, os policiais, me mandassem parar. Só faltei implorar. Passei por quatro postos da polícia e nada. Fui uma vez e nada. Duas e nada. Três… Durante uns cinco anos, percorrendo esses 450 km que separam Campina Grande da minha Cidade, Várzea Alegre, (cinco vezes por ano) fui parado uma única vez. Foi no posto da PRF de Santa Luzia/São Mamede. Fiquei orgulhoso. Ia mostrar minha habilitação. Dizer que era um cidadão de bem, que andava dentro da lei. Que decepção, o policial queria apenas uma informação. Tinha ocorrido um acidente na descida da Serra de Santa Luzia e ele queria saber se eu tinha visto algo. Após ajuda-lo com a informação desejada, segui minha Infinita Highway frustrado. Eu era a frustração em pessoa. Era o dia de dizer: “eu sou foda”. Pois é, tadinho de mim, em uma década fazendo esse e outros trajetos pela Paraíba, Pernambuco e Ceará, devo ter sido parado umas duas ou três vezes.

Em Campina Grande não tem sido diferente. Dentro da cidade sempre passo elegantemente pelas blitzem. Circulo a cidade de norte a sul e ninguém me para. Quer dizer, não haviam me parado. Ontem mandaram estacionar no acostamento. Ali, as margens do Açude Velho. Cenário de cinema. Era fim de tarde e o policial estava levemente desorientado ao me desejar “Bom dia”. Sorri pra ele como se diz “alô, são quatro da tarde” e respondi “Boa tarde, cidadão”. Isso com a tranquilidade de um monge em oração. Ele justificou, educadamente, a perda de noção do tempo: “Estou desde cedo trabalhando.” Tadinho. Achei massa. Ele nem precisava dizer aquilo. Mas quis ser educado. Parabéns. Entreguei toda a documentação de praxe. Ele conferiu e finalmente disse: “Boa tarde e muito obrigado”. Não me perguntem de onde eu vinha. É segredo. Nem porque as quatro da tarde de um domingo eu ainda estava sóbrio: não saberia dizer. “Por nada, bom trabalho”.

Campina Grande – 06 de janeiro de 2016

(*) Jornalista, Escritor, Professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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