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Bispo do Rosário

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 25 de abril de 2019 às 13:09

Nas páginas 94 e 95 do livro de minha autoria “Entre o Açude e a Serra”, publicado em outubro de 2014, há um texto intitulado: “A arte de Bispo do Rosário”. Quase cinco anos depois, volto ao tema para destacar, desta feita, a música “Galope beira-mar para Bispo do Rosário”, composta por Antonio Nóbrega e Wilson Freire, gravada por Antonio Nóbrega no disco “O Marco do Meio Dia”, lançado em 2000.

Seguem os versos da 1ª estrofe do galope: “Então, meia-noite, anjos emissários/ Em conta de sete, de aura azulada, / Falaram pra ele, punhando as espadas:/ És tu o escolhido, Bispo do Rosário. / Terás de fazer o teu inventário / E reconstruir o universo sem par/ Pra diante de Deus tu te apresentar/ Vestido em teu manto vermelho-centelha, / Entrou no hospício da Praia Vermelha / Cantando galope na beira do mar. ”

Para quem não conhece a história de Bispo do Rosário, talvez seja oportuno lembrar um pouco de sua trajetória. Nascido em Japaratuba, Sergipe, em 14 de maio de 1909, Arthur Bispo do Rosário alistou-se na Escola de Aprendizes da Marinha, em 23 de fevereiro de 1925.

Em 1933, foi desligado da Marinha por indisciplina. No mesmo ano, empregou-se como lavador de bonde na companhia Light, tendo sido demitido por não cumprimento de ordem e ameaça ao seu chefe.

Em 1938, depois de um surto, foi diagnosticado como portador de esquizofrenia paranoide e internado no Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro – RJ. No ano seguinte, foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, onde começou a cumprir a missão que a ele teria sido determinada pelos sete anjos emissários de Deus por ocasião do surto.

Tal missão está descrita na 2ª estrofe do “Galope beira-mar para Bispo do Rosário”: “Aí agarrou-se àquela missão, / Mas todos diziam que era loucura. / Sozinho a sentir a dor, a agrura/ De ter de fazer a reconstrução. / De enorme tarefa e tudo à mão, / Só tinha sucata para começar. / Sem barro de adão para ele soprar, / Só cacos de vidro e tacos de telha, / Ali no hospício da Praia Vermelha/ Cantando galope da beira do mar. ”

Trabalhando de forma frenética durante sete anos, encerrado num quarto do hospício, Bispo do Rosário produziu mais de oitocentas peças, utilizando variados suportes, tais como: madeira, lençóis, latas, utensílios domésticos, etc.

Toda matéria-prima utilizada para produzir sua arte, ele coletava no lixo e no cotidiano do hospital.  Assim, com fios retirados de seu uniforme e de outros pacientes, ele bordava lençóis, transformando-os em mantos e estandartes, ilustrados com palavras e símbolos do seu imaginário, aproveitando: papelão, sapatos velhos, botas, chinelos, canecas, garrafas, embalagens plásticas, botões, colheres e moedas, ordenando tudo numa estática própria, conforme ilustrado na 3ª estrofe:

“Juntando pedaços de panos, caixotes, / Com pregos, botões, colheres, canecos, / Flanelas, lençóis, agulhas, chinelos, / Brinquedos, moedas, um velho holofote, / Lutou contra todos, virou Dom Quixote/ Com lixo a empreitada pôde terminar, / Até que um anjo o veio buscar. / E aí, com meu Deus, fizeram parelha, / Saiu do hospício da Praia Vermelha, / Cantando galope na beira do mar. ”

De forma simbólica, o verso “Até que um anjo o veio buscar” representa o fim da saga de Bispo do Rosário, com a sua morte, ocorrida em 5 de julho de 1989, na Colônia Juliano Moreira, tendo como causas: infarto do miocárdio, arteriosclerose e broncopneumonia.

Morreu o artista, aos oitenta anos, mas, felizmente, a sua obra permanece viva, preservada em museus, no Brasil e no exterior, em livros, filmes e trabalhos acadêmicos.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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