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Benedito Antonio Luciano: Quatro livros do poeta Geraldo Amancio

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 4 de março de 2021 às 9:20

Geraldo Amancio Pereira é um poeta diferenciado. Além de cantador e repentista ele é pesquisador, palestrante e profícuo divulgador da cultura nordestina, tanto em prosa quanto em versos.

O primeiro contato com o fazer poético desse grande artista se deu em 1977, quando assisti a uma apresentação dele em dupla com o violeiro Ivanildo Vila Nova, no Teatro Severino Cabral, em Campina Grande – PB. Na oportunidade, adquiri um exemplar do primeiro LP lançado por eles sob o título: “Violas de Ouro”.

Transcorridas mais de quatro décadas, continuo interessado pela obra desse que é considerado um dos maiores poetas do Brasil, segundo opinião compartilhada por outros grandes poetas, tais como: Patativa do Assaré, Pinto de Monteiro, José Alves Sobrinho, Ariano Suassuna e Pedro Bandeira.

Motivado por esse interesse, busquei e encontrei na internet o endereço eletrônico de Geraldo Amancio. Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, enviei uma mensagem para ele via e-mail. Ele respondeu e gentilmente postou nos correios 4 livros de sua autoria.

Os livros foram os seguintes: “Lampião: rei do cangaço”, “A história de Antonio Conselheiro”, “O Pequeno Príncipe” e “Andarilho do canto e da palavra: minha história, meus versos, minha vida”. Li todos nessa ordem.

Em “Lampião: rei do cangaço”, baseado em pesquisa cuidadosamente elaborada, Geraldo Amancio narra com detalhes, em estrofes de sete versos, a biografia e a saga de Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), o famoso e controverso bandoleiro nordestino.

Dessa obra destaco a seguinte estrofe: “Quanta dor, quanta tristeza, / Vexame e humilhação! / Ações de um grupo sinistro, / Sem Deus e sem coração, / Desalmado e delinquente, / Assim mesmo, ainda tem gente/ Que defende Lampião. ”

“A história de Antonio Conselheiro”, narrada em prosa por Euclides da Cunha em seu famoso livro “Os Sertões”, foi convertida em versos e se transformou numa obra-prima nas mãos de Geraldo Amancio. Dirigindo-se ao amigo poeta, assim se expressou o cordelista Klévisson Viana: “Se você não escrever mais nada, basta a ‘A história de Antonio Conselheiro’ para lhe imortalizar”.

Eis como Geraldo Amancio apresentou o livro “A história de Antonio Conselheiro” aos leitores: “Este livro de forma natural/ Conta fatos que sempre são negados, / Vinte mil camponeses chacinados/ De maneira covarde e desleal. / Desmascara a história oficial/ Faz falar os arquivos que eram mudos. / Versos graves, esdrúxulos e agudos/ Vêm contar ao povo brasileiro, / A história de Antonio Conselheiro/ E a chacina do povo de Canudos. ”

Nos livros “A história de Antonio Conselheiro” e “Lampião: rei do cangaço” destacam-se as ilustrações do artista plástico Kazane (pseudônimo de Venícius Aurélio Borges Teixeira, nascido em Sousa – PB e radicado em Fortaleza – CE). Nelas, em perfeita harmonia com o tom dramático da narrativa, ressaltam-se as cores fortes, numa profusão de pinceladas e traços bem definidos que remetem ao expressionismo, ao cubismo e à xilogravura.

“O Pequeno Príncipe”, obra literária do escritor francês Antoine Sant-Exupéry, escrita em prosa, recebeu uma releitura poética nas mãos de Geraldo Amancio. O resultado foi outra obra-prima. Um livro precioso para ser lido por pessoas das mais diferentes idades. Uma obra a ser utilizada nas escolas como instrumento didático para despertar o interesse dos jovens pela literatura e pelo fascinante mundo da poesia.

“Andarilho do canto e da palavra: minha história, meus versos, minha vida” é uma narrativa autobiográfica do poeta Geraldo Amancio, começando pela sua ancestralidade, passando pelo seu núcleo familiar, seu nascimento no Sítio Malhada de Areia, no município de Cedro – CE, e prosseguindo com a saga de sua vida até 2016, ano do lançamento do livro, em Fortaleza, pela Editora Premius.

A escolha do título do livro foi perfeita, refletindo fielmente o seu conteúdo. Pois, de fato, o poeta Geraldo Amancio, por conta de seu ofício, se tornou, literalmente, um “Andarilho do canto e da palavra”.

Na capa destaca-se, em primeiro plano, a silhueta de um homem com uma viola em punho no meio de um caminho de terra. No segundo plano, na linha do horizonte, o que se vê é um pôr do sol muito bonito sobre as serras.

Generoso, ao longo do livro “Andarilho do canto e da palavra: minha história, meus versos, minha vida” o poeta Geraldo Amancio compartilha o protagonismo do seu fazer poético com outros cantadores e repentistas com os quais interagiu ao longo de suas andanças pelo Brasil e pelo exterior, ressaltando, de forma ética, o talento de cada um.

Sobre o porquê de ter produzido o livro supracitado, seguem duas estrofes nas quais o poeta expõe, com clareza, o real motivo:

Primeira estrofe: “Este livro foi gerado/ Do dom que Deus tem me dado/ É uma espécie de legado/ Que deixo pra o povo meu. / Fale cada descendente/ Nós tivemos um parente/ Que além de cantar repente/ até livro escreveu”.

Última estrofe: “Se um dia acontecer, / Se alguém quiser saber, / Como foi o meu viver/ O meio, o começo, o fim, / Quando a viola se calar/ Quando eu não puder cantar, / Ou não puder nem falar, / O livro fala por mim. ”

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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