Fechar

logo

Fechar

Benedito Antonio Luciano: Poesia nordestina de um argentino

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 29 de outubro de 2019 às 10:34

Pablo Javier Alsina, professor Titular do Departamento de Engenharia de Computação e Automação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, além de ser um pesquisador talentoso e profícuo em seu campo de atuação profissional, é um poeta multifacetado.

Nascido em Ituzaingó, província de Buenos Aires, Argentina, ainda criança, em 1978, Pablo veio com seus pais morar em Campina Grande – PB, onde realizou seus estudos, desde a 8ª Série até o mais alto grau acadêmico.

Foi no Campus II da Universidade Federal da Paraíba, atual Universidade Federal de Campina Grande, que Pablo Alsina concluiu os cursos de graduação (1987), mestrado (1991) e doutorado em Engenharia Elétrica (1996). 

Foi morando em Campina Grande que esse argentino aprendeu a gostar da cultura popular nordestina. Sempre atento às manifestações culturais, ele desenvolveu o gosto pela cantoria de viola, pela literatura de cordel, pelo forró, xote, coco, baião e demais ritmos a eles associados.

Na prática, concomitante à formação acadêmica nas artes da engenharia elétrica, Pablo foi buscando outros conhecimentos, em particular aqueles que não se aprendem nos compêndios técnicos e científicos. 

Para tanto, fundamentou seu embasamento nas leituras dos folhetos, ouvindo cantorias, participando de rodas de capoeira, percorrendo feiras, frequentando bares, ruas e ambientes onde a oralidade prevalecia como elemento de comunicação e transmissão de saberes.

Bom de ouvido, logo ele pegou o ritmo, a dicção, a musicalidade e a técnica de unir versos, compondo sextilhas, sétimas e décimas de rara inspiração. E, na medida em que foi lendo, ouvindo e exercitando o seu fazer poético, foi se “anordestinando” e incorporando ao seu universo vocabular palavras do nordestinês, colhidas ao longo dos caminhos trilhados por Chico Antônio, Silvino Pirauá, Leandro Gomes de Barros, José Camelo de Melo Rezende, Otacílo Batista, Zé Limeira, Zé Lacraia, João Grilo, Pedro Malazarte e Cancão de Fogo.

Em 1985, quando conheci Pablo Alsina, ele era aluno do curso de graduação em Engenharia Elétrica. Em 1990, fomos colegas de turma na disciplina Máquinas Elétricas Especiais, ministrada pelo saudoso professor Evandro Fechine no curso de pós-graduação em Engenharia Elétrica. 

Naquela oportunidade, partindo de um tema sugerido pelo professor, elaboramos e tivemos dois trabalhos de nossa autoria publicados nos anais do Congresso Brasileiro de Automática, evento realizado em Belém – PA, marcando o início não apenas de uma parceria, mas de uma sólida amizade.

Da produção técnica-científica, evoluímos para outros tipos de parcerias, baseadas na cumplicidade literária, sobretudo no tocante às produções poética e musical. Assim, de forma despretensiosa, fomos compondo poemas, letras de músicas, e, cada um no seu estilo, compartilhando ideias e esboços de desenhos. 

Sim, desenhos, pois além de poeta, Pablo Alsina é um bom desenhista; e todas as ilustrações das capas dos cordéis que ele produziu e editou em computador são de sua autoria. Muitos dos originais desses cordéis, desenhos e vários poemas de sua lavra mantenho preservados em arquivos digitais e em uma pasta nos meus alfarrábios.

Num recente levantamento, pude listar mais de quatro dezenas de cordéis da autoria desse argentino nordestinado. Neles, são abordados temas e estilos variados: realismo fantástico, ABC, pelejas e motes, cartilhas, romances, fatos históricos e aulas da saudade. 

Praticamente, todo esse material permanece inédito. Mas, segundo o autor, ele tem planos de publicá-lo, talvez sob forma de coletânea. E, em meio a esse material, tem um dos mais originais: “A incrível história dos quatro fabulosos Besouros do Forró”, uma releitura antológica da saga dos Beatles, ambientada em Campina Grande.

Para ilustrar o talento poético desse nordestino portenho, registro que certa vez propus a ele um mote nos seguintes termos: como posso sentir-me assim tão triste, / se na vida eu nasci pra ser feliz?

Ele glosou o mote em seis estrofes, dentre os quais destaco a primeira: “Pelo vidro molhado da janela, / escorrega uma lágrima brilhante. / As lembranças, mãos fortes de um gigante, / que apertam um nó em minha goela. / Na poltrona, o gato, que era dela, /me observa com olhos de juiz. / Seu severo olhar, mudo, me diz / o fatal veredicto, dedo em riste:/ como posso sentir-me assim tão triste, / se na vida eu nasci pra ser feliz? ”

Em outra oportunidade, propus o seguinte mote: Passa a Lua, passa o Sol, passam os astros, / só não passa a saudade do meu bem. 

Dentre as seis estrofes que ele compôs para glosar o mote, segue a quinta: “Passam Bíblos, Sidón, Atenas, Ur, / Tebas, Alexandria, Troia e Roma;/ Babilônia, Bizâncio e Sodoma;/ Ecbatana, Passárgada e Assur./ Passam Tiro, Babel, Lagash, Nippur,/ Jericó, Nazaré, Hebrón, Belém./Cuzco e Tenochtitlán hoje só têm / velhas ruínas de bronzes e alabastros./Passa a Lua, passa o Sol, passam os astros,/ só não passa a saudade do meu bem”. 

Embora a maior parte da produção poética de Pablo Javier Alsina permaneça inédita, alguns de seus poemas foram submetidos ao crivo de comitês editoriais e, em meio a outros autores, foram publicados em coletâneas. 

Um desse exemplo dessa publicação é o poema surrealista “Aboio do mar salgado”, submetido ao Concurso Nacional Novos Poetas, Prêmio Poesia Livre 2018, promovido pela Vivara Editora. O “Aboio do mar salgado” foi classificado e incluído na Antologia Poética do referido concurso. 

Evoé, Pablo Alsina!

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Benedito Antonio Luciano
Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube