Benedito Antonio Luciano: Otacílio Batista e seus irmãos cantadores

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 14 de janeiro de 2021 às 9:46

No Nordeste brasileiro a arte dos cantadores de viola remonta à época dos grandes repentistas, dentre eles: Agostinho Nunes da Costa, Silvino Pirauá, Bernardo Nogueira, Romano de Mãe D’água, Cego Aderaldo, Inácio da Catingueira, Pinto de Monteiro, Josué Cruz e Zé Pretinho.

Em meio aos mestres da arte do improviso, destacam-se três irmãos cantadores: Lourival, Dimas e Otacílo Batista Patriota; filhos de Raimundo Joaquim Patriota, natural da cidade de Monteiro – PB, e Severina Batista Patriota, da cidade de Teixeira – PB.

Lourival, o mais velho dos três, nasceu em 6 de janeiro de 1915, na antiga Vila de Itapetim, quando essa pertencia ao município de São José do Egito – PE. Conhecido, também, como Louro do Pajeú, sua maior característica era a facilidade com a qual improvisava versos com alterações de letras e palavras, ficando, por isso, conhecido como o “Rei do Trocadilho”. Segue um exemplo: “É muito triste ser pobre;/Pra mim, é um mal perene…/ Trocando o “p” pelo “n”, / É muito alegre ser nobre;/ Sendo pelo “c” é cobre, / Cobre figurado é ouro. / Botando o “t” fica touro;/ Como a carne e vendo a pele. / O “t sem o traço é “l”;/Termina só sendo “Louro”! ”.
Dimas nasceu em Itapetim – PE, em 17 de setembro de 1921. Formado em Letras Clássicas, era o mais culto dos três. No dizer de seu irmão Otacílio, Dimas cantava e escrevia em todos os gêneros com perfeição de um poeta nato. Autor de poemas de rara beleza como “Jesus Filho de Maria” e “A abelha e a formiga”, são dele os versos sobre Henrique Dias, partindo de um mote proposto pelo então acadêmico de Direito Ariano Suassuna, em 1946: “Depois da luta mais dura/Contra a invasão holandesa,/ Morreu em extrema pobreza,/ Na mais cruel desventura!/ Sendo a máxima bravura/ Dos negros pernambucanos!/ Há mais de trezentos anos/ Sem epitáfio nem lousa:/ Henrique Dias repousa/ No templo dos franciscanos”.

Otacílio nasceu em 26 de setembro de 1923, na Vila de Umburanas, Município de São José do Egito, região do Pajeú das Flores, hoje cidade de Itapetim. Além de grande repentista, Otacílio Batista é autor de vários livros, dentre os quais: “Antologia Ilustrada dos Cantadores”, lançado em 1976, em parceria com Francisco Ferreira Linhares.

Para exemplificar o talento de Otacílio Batista como repentista, basta citar a sextilha com que deu início a uma cantoria com Josué Alves da Cruz: “Vamos, Josué da Cruz, / Que o povo está esperando. / Os teus versos, como estrela, / No firmamento, brilhando/ E os meus, como vagalume, / Acendendo e se apagando”.

Depois de ter publicado vários cordéis e gravado 7 LPs, Otacílio Batista publicou seu primeiro livro, “Poemas e canções”, em 1971. Em 1978 publicou “Ria até cair de costas”. Em 1981 publicou seu terceiro livro, intitulado “Poemas que o povo pede”. Em 1983, publicou “Criança abandonada e outros poemas”. Em 1984 publicou “Os versos apimentados do velho João Mandioca” e, em 1985, publicou “Os três irmãos cantadores: Lourival, Dimas e Otacílio”.

Estes são os livros de Otacílio Batista que conheço, dos quais preservo na minha estante os exemplares de “Os versos apimentados do velho João Mandioca” e “Os três irmãos cantadores: Lourival, Dimas e Otacílio”, dedicados e autografados pelo autor.

Em “Os versos apimentados do velho João Mandioca”, há poemas de Otacílio Batista que em outras publicações são atribuídos ao quase lendário poeta Zé Limeira; e na página 122 do livro citado encontra-se o poema “Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor”, que ficou bastante conhecido ao ser musicado por Zé Ramalho e gravado originalmente pela cantora cearense Amelinha, em 1982.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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