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Benedito Antonio Luciano: O tempo e a seca

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 2 de julho de 2020 às 11:56

Em 9 de outubro de 2008, data de meu aniversário, eu estava participando do XVIII Seminário Nacional de Distribuição de Energia Elétrica – SENDI, evento realizado no Centro de Convenções de Olinda – PE.  

 No intervalo do almoço, decidi passar numa loja no shopping e me presentear com um CD de Flávio José, intitulado “Cidadão comum”, lançado em 2003. Nesse CD, além da música que serviu de título ao disco, há outra, intitulada “Mala e cuia”, que fez muito sucesso no São João de Campina Grande – PB.

Depois do evento, ao voltar para casa e ouvir todas as treze músicas que compõem o disco, a minha atenção se voltou, de forma especial, para uma intitulada “O tempo e a seca”, composição de Miguel Marcondes, filho do poeta Zé de Cazuza.

Como nordestino, o fenômeno da seca é algo que me remete às histórias que ouvi na infância sobre o sofrimento dos retirantes, antes mesmo de ler os clássicos “Vidas secas”, do alagoano Graciliano Ramos, e “O Quinze”, da cearense Rachel de Queiroz.

Nos versos da música “O tempo e a seca” há um quê de nostalgia atávica ao descrever a mudança do cenário causada pela falta de chuvas: “O riacho não vi mais, cheio/ O inverno não voltou/E a seca que ali chegou/ Não quis mais se arretirar”.

Sem chuvas regulares, tudo vai secando (riachos, açudes, barreiros, cacimbas e plantas) e todos são atingidos: gente, fauna e flora. Sem água, “Macambira morre/Xique-xique seca/ Juriti se muda”, tal qual ratificado nos versos da música “Meu Cariri”, composição de Rosil Cavalcanti e Dilú Mello.

Os versos seguintes de “O tempo e a seca”: “Passarinho foi embora/ Não sei mais aonde mora/ se ainda sabe cantar”, fizeram-me lembrar de um trecho de “Aquarela nordestina”, composição de Raimundo Asfora e Rosil Cavalcanti: “No Nordeste imenso/Quando o Sol calcina a terra/Não se vê uma folha/Verde na mata ou na serra. / Juriti não suspira/Inhambu seu canto encerra/…”.

Prosseguindo, o compositor assume um tom nostálgico: “Um antigo cajueiro/ Manga rosa e coqueiro/São saudades do lugar/O silencio é a voz/ Lá na casa dos avós/ A tristeza foi morar/ Não existe cantoria/ Vaquejada onde havia/ Muito forró pra dançar/ Não tem peixe, nem anzol/Pescaria futebol/Prado nem se ver falar/”.

E finaliza a letra de forma primorosa ao atribuir ao tempo sentimentos humanos: “Será que o tempo não chora/ quando deixa tudo para trás/ Não podendo nunca mais/tudo que passou passar/Êia, êia, êô/ Êia, êia, êô/”.

Depois de atentar para a letra, foi a vez de me fixar na interpretação, melodia e arranjo. No tocante à interpretação, a voz de Flávio José soa clara, em perfeita consonância com as frases melódicas, e arranjo ficou muito bom. A harmonia lembra o estilo de algumas músicas gravadas por Alceu Valença.

O ritmo, marcado pelos instrumentos de cordas e percussão, é cheio de sutilezas, com destaque para o contrabaixo, guitarra, zabumba, triângulo, pandeiro, agogô e bateria. E, em especial, para o acompanhamento de Genaro, um dos melhores sanfoneiros do Nordeste.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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