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Benedito Antonio Luciano: O poder da fé

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 25 de março de 2020 às 11:19

Lançado no Brasil pela Editora Objetiva, em 2008, o livro “Sobrevivi para contar: o poder da fé me salvou de um massacre” tem como autores a ruandesa Immaculée Ilibagiza e o norte-americano Steve Erwin. 

Nos Estados Unidos, a obra foi lançada originalmente em 2006, sob o título: “Left to tell: Discovering God Amidst the Rwandan Holocaust”.

A sobrevivente referida no título do livro é a própria Immaculée Ilibagiza e o massacre ao qual ela se refere foi aquele ocorrido em Ruanda, na África, quando entre abril e julho de 1994, conflitos étnicos ancestrais se transformaram em um dos maiores genocídios da História, no qual mais de um milhão de ruandeses foram barbaramente assassinados.

  Num relato quase autobiográfico, no livro, Immaculée narra parte de sua história desde a sua infância tranquila em Ruanda, até a sua imigração para os Estados Unidos, onde passou a trabalhar para as Nações Unidas, em Nova York, direcionando seus esforços para ações de ajuda a outros sobreviventes.

Dividido em vinte e quatro capítulos, no livro a história de Immaculée é contada em 3 partes, cada uma com 8 capítulos. 

Na parte I, intitulada “A tempestade em formação”, a autora começa relatando que nasceu em Kibuye, uma província de Ruanda Ocidental, na aldeia Mataba, em uma casa com vista para o lago Kivu, de onde se podiam ver as montanhas fronteiriças com o Zaire, atual Republica Democrática do Congo.

Nessa parte do livro são destacados: o contexto familiar, onde Immaculée foi criada, em meio a uma família católica da etnia tútsi; seus estudos iniciais e seu primeiro contato com a intolerância étnica, quando um professor ordenou: 

– De pé, todos os tútsis! 

Como ela, até então, não sabia o significado desse tipo de segregação, ficou sentada e seguiu-se o dialogo: 

– A qual tribo você pertence?

– Não sei professor.

– Você é tútsi ou hútu?

– Eu não sei professor.

– Saia! Saia da classe e não volte até saber quem é.

Assim, aos 10 anos, Immaculée conheceu uma realidade de seu país que seus pais não haviam ensinado em casa, pois ela não sabia que Ruanda era povoada por três tribos: uma maioria hútu, uma minoria tútsi e um número insignificante de twas, cerca de 1% da população, povo semelhante a pigmeus, que vivia nas florestas.

Nos capítulos 3 e 4 são narrados os fatos relativos à vida escolar da personagem principal do livro em seus estudos secundários e na universidade, onde sempre se destacou como uma excelente aluna, superando as barreiras da discriminação e da intolerância étnica.

Entre os capítulos 5 e 8 são relatados os fatos que antecederam ao início do massacre dos tútsis perpetrado pelos hútus, depois que o avião em que estava o presidente de Ruanda, que buscava estabelecer um tratado de paz entre as duas etnias, ter sido abatido em pleno ar.  

No capítulo 7 começa a narrativa dramática de como Immaculée, para fugir da morte, sobreviveu confinada no banheiro da casa de um pastor da etnia hútu, junto com sete mulheres tútsis, ouvindo as vozes dos homens que queriam matá-las. 

Conforme a narrativa, o banheiro era pequeno, medindo aproximadamente um metro e vinte de comprimento por um metro de largura. Para que se tenha uma ideia do sofrimento passado por essas mulheres, basta lembrar as recomendações passadas a elas pelo pastor:

– Não deem descarga no vaso nem usem o chuveiro. Há mais um banheiro, do outro lado da parede, que utiliza o mesmo encanamento. Se for indispensável usar a descarga, esperem até alguém usar o outro banheiro e usem a descarga exatamente no mesmo instante. 

Daí por diante, seguem-se os capítulos, tendo como roteiro a narrativa do drama de Immaculée e de suas companheiras no exíguo espaço de um banheiro, sendo alimentadas precariamente pelo pastor que lhes traziam, de madrugada, restos da comida que sobravam do jantar de sua família, já que, para a segurança de todos, ninguém da casa poderia saber que ele escondia mulheres de outra etnia.  

Nessa circunstância, diante de tanto sofrimento, além de lutar pela sobrevivência, Immaculée teve que lutar consigo mesma para manter a sua fé em Deus e se preparar para viver uma nova realidade depois de ser libertada do confinamento e, sobretudo, lutar para por em prática o mandamento maior deixado por Jesus Cristo: o amor ao próximo, mesmo que esse próximo tenha sido o assassino de seu pai. 

Como ela conseguiu sobreviver para contar toda essa história e exercitar o perdão, não vou contar para não tirar do leitor a oportunidade de saber por si mediante a leitura completa do livro “Sobrevivi para contar: o poder da fé me salvou de um massacre”.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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