Benedito Antonio Luciano: O nordestinês de Elomar

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 10 de junho de 2021 às 9:13

Dêrna cuano uvi pela primêra vêiz um disco de Elomar, fiquei encafifado cum certas palavras prununciada pru ele nas letra de algumas musgas (sic). Era o nordestinês em seu estado puro, natural, tal como falado no Sertão catingueiro.

Para quem não conhece, Elomar é o nome artístico do cantor e compositor Elomar Figueira Mello, nascido em Vitória da Conquista – BA, em 21 de dezembro 1937.
Seu primeiro disco foi lançado em 1968, um compacto simples com duas de suas composições: “O violeiro” e “Canções da catingueira”.

Em 1972, lançou “Das barrancas do Rio Gavião”, um disco gravado em vinil, tendo na contracapa a apresentação de Vinícius de Morais, na qual o poeta declarava ser o estilo de Elomar “uma sábia mistura do romanceiro medieval e do cancioneiro do Nordeste”.

Nesse disco, dentre as doze faixas nele presentes, mantida a grafia da capa, destacam-se: “O Violêro”; “O Pidido”; “Cantiga de Amigo”; “Cavaleiro do São Joaquim”; “Na estrada das areias de ouro”; “Retirada”; e “Canção da Catingueira”. Para ilustrar o nordestinês de Elomar, escolhi a letra da canção “O pidido”:

“Já qui tu vai lá pra fêra/ Traga de lá para mim/ Água da fulô que chêra/ Um nuvelo e um carrin/ Trais um pacote de misse/ Meu amigo, ah se tu visse/ Aquele cego cantadô!/ Um dia ele me disse/ Jogano um mote de amô/ Qui eu havéra de vivê/ Pur esse mundo/ E morre ainda em flô/ Passa naquela barraca/ Daquela mulé reizêra/ Onde almuçamo paca/ Panelada e frigidêra/ Inté você disse uma loa/ Gabano a boia boa/ Qui das casas da cidade/ Aquela era a primêra/ Trais pra mim uãs brividade/ Qui eu quero mata sodade/ Fais tempo qui fui na fêra/ Ai sodade…/ Apois sim vê se num esquece/ Quinda nessa lũa chêa/ Nós vai brinca na quermesse/ Lá no Riacho d’Arêa/ Na casa daquele home/ Feiticêro e curadô/ Qui o dia intêro é home/ Filho de Nosso Sinhô/ Mais dispois da mêa noite/ É lubisome cumedô/ Dos pagão qui as mãe esqueceu/ Do batismo salvadô/ E tem mais dois garrafão/ Cum dois canguin responsador/ Apois sim vê se num esquece/ De trazê ruge e carmim/ Ah se o dinheiro desse!/ Eu queria um trancilin/ E mais treis metro de chita/ Qui é preu fazê um vestido/ E fica bem mais bunita/ Qui Madô de Juca Dido/ Qui Zefa de Nhô Joaquim/ Já qui tu vai lá pra fêra,/ Meu amigo, trais/ Essas coisinha para mim..”.

Agora, vou tentar “traduzir” o significado de algumas palavras contidas na letra da canção citada: qui (que); fêra (feira); água da fulô qui chêra (perfume); nuvelo (novelo); carrin (carrinho); misse (grampo para prender os cabelos); cantadô (cantador); jogano (jogando); amô (amor); havéra (haveria); vivê (viver); pur (por); flô (flor); mulé (mulher); reizêra (rezadeira); almuçamo (almoçamos); paca (muito); frigidêra (frigideira); inté (até); gabano (gabando, elogiando); boia (comida); primêra (primeira, a melhor); trais (traz); uãs (umas); brividades (brevidade, bolo à base de maizena); sodade (saudade); fais (faz); num (não); quinda (que ainda); lũa (lua); chêa (cheia); Arêa (Areia); home (homem); feitecêro (feiticeiro); curadô (curador); intêro (inteiro); Nhô (Senhor); dispois (depois); mêa (meia); lubisome (lobisomem); cumedô (comedor); salvadô (salvador); canguin responsador (boneco utilizado em ritual para encontrar algo que foi perdido ou furtado); apois (pois); trazê (trazer); trancilin (trancelim); treis (três); preu (para eu); fazê (fazer); bunita (bonita); Madô (Maria das Dores); Zefa (Josefa).

Isto posto, tenho consciência de que o foi aqui apresentado não cobre as expectativas dos apreciadores da obra de Elomar. Porém, ao apresentar esta pequena amostra, tive por objetivo trazer aos leitores desta coluna uma provocação para estudos mais aprofundados sobre a riqueza linguística nordestina presente na obra desse grande artista.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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