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Benedito Antonio Luciano: O alienado consciente

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 22 de julho de 2021 às 9:36

A minha esposa, que é graduada em Ciências Sociais (Sociologia), estranhou muito quando eu disse que, vez por outra, deliberadamente, assumo a postura de alienado consciente.

Ela disse: se é alienado, não pode ser consciente. Então, eu expliquei o seguinte: para preservar a saúde mental, me abstenho de participar de discussões estéreis. Para tanto, pratico o recolhimento interior e a solidão povoada como mecanismos de defesa.

Certamente, alguns podem dizer que tais mecanismos de defesa seriam, de fato, mecanismos de fuga. Se é uma coisa ou outra, não sei e não me preocupo com isto. Só sei que a alienação consciente me faz muito bem.

Para ilustrar, vou citar algumas situações nas quais usei a alienação consciente para não me desgastar inutilmente e canalizar as minhas energias para coisas mais úteis.

Começando pela atual pandemia causada pelo vírus responsável pela Covid-19. No início, quando as redes de televisão em seus noticiários não tinham outro assunto a não ser divulgar o placar da morte, parei de sintonizar esses canais e, assim, além de preservar a minha saúde mental, reduzi o consumo de energia elétrica.

Entretanto, mesmo sem assistir o placar da morte veiculado nos noticiários, sempre alguém me dava conta que alguma pessoa conhecida, famosa ou não, havia morrido vítima desse famigerado vírus, pois ele é matador mesmo.

Não tenho certeza, mas esse vírus deve ser tão letal que não se ouve mais falar em doenças causadas pelos mosquitos transmissores da dengue. Será que esses mosquitos foram dizimados pelo vírus chinês? Não sei. Só sei que ele é perigoso e precisamos ter cuidado, com o vírus e com as notícias veiculadas na grande mídia e nas redes sociais.

Neste contexto, antes de as medidas cautelares objetivando mitigar os riscos de contágio fossem postas em prática, dentre elas a substituição das reuniões presenciais por reuniões remotas, participei de reuniões de condomínio e assembleias no meu local de trabalho em ambiente virtual.

Participar de reuniões de condomínio e de assembleias presenciais eram tarefas muito penosas para mim. Em algumas situações, toda vez que percebia o início de discussões longas e tediosas, prenhe de retóricas que intentavam esconder interesses obscuros, eu me valia do mecanismo da alienação consciente.

Na universidade, por mais de dois anos participei de reuniões na Câmara Superior de Ensino como representante dos professores do Centro do qual fazia parte. Tais reuniões, às vezes, começavam num dia (manhã e tarde) e terminavam no outro. E haja questões de ordem, questões de encaminhamento, muito discurso populista e falta de objetividade nas falas. Como suportei? Mantendo o corpo presente e a mente ausente.

Certa feita, não lembro mais o ano, um Chefe do Departamento me interpelou reservadamente sobre o porquê do meu silêncio nas assembleias e os meus sistemáticos votos de abstenção.

Então, disse a ele que o meu silêncio era uma forma de colaborar com a objetividade da reunião. Calado, não provocaria polêmicas junto a quem não tendo nada de novo a apresentar se limitava a se contrapor às ideias por mim apresentadas.

Na realidade, o que ele não sabia era que para manter a serenidade, eu tinha acionado o mecanismo da alienação consciente, evitando, assim, dar mote para poeta ruim.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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