Benedito Antonio Luciano: Eu, o rio e o mar

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 3 de junho de 2021 às 8:34

Lançada em 1960, a música “Eu e o rio”, composição de Luiz Antônio (Antônio de Pádua Viera da Costa), gravada pelo cantor Miltinho (Milton Santos de Almeida), contando apenas com o acompanhamento magistral de Baden Powell (Baden Powell de Aquino) ao violão, é uma obra-prima.

Depois dos primeiros acordes do violão, entra Miltinho com a voz muito bem empostada, em perfeita sincronia, numa dicção impecável, sem enfraquecer um “erre”: “Rio, caminho que anda e vai resmungando, talvez uma dor/Ah! Quanta pedra levaste, outra pedra deixaste sem vida e amor. / Vens lá do alto da serra, o ventre da terra rasgando sem dó. / Eu também venho do amor com o peito rasgado de dor e tão só. / Não viste a flor se curvar, teu corpo beijar e ficar lá pra trás. / Tens a mania doente de andar só pra frente, não voltas jamais. / Rio, caminho que anda, o mar te espera, não corras assim. / Eu sou um mar que espera alguém que não corre pra mim. ”

A técnica vocal de Miltinho foi aperfeiçoada ao longo de sua carreira, iniciada no decênio de 1940, quando ele atuou como integrante de diversos grupos (“Anjos do inferno”, “Namorados da lua”, “Quatro ases e um coringa”, “Milionários do ritmo”, dentre outros) e como “crooner” da Orquestra Tabajara.

O domínio do ritmo, da respiração, da divisão, a capacidade de avançar e retroceder as frases musicais por parte de Miltinho, em algumas interpretações, nos faz lembrar a malemolência de Jackson do Pandeiro.

No que diz respeito ao compositor Luiz Antônio pode-se dizer que ele foi um grande letrista. São dele, sozinho ou em parceria, letras de músicas que fizeram grande sucesso na voz de Miltinho, dentre elas: “Mulher de trinta” (“Você, mulher/ Que já viveu/Que já sofreu/ Não minta/ Um triste adeus/ Nos olhos seus/ A gente vê mulher de trinta/…”); “Menina moça” (“Você botão de rosa/ Amanhã, na flor mulher/ Jóia preciosa, cada um deseja e quer/ De manhã banhada ao sol/ Vem o mar beijar/ Lua enciumada noite alta vai olhar/ Você menina moça, mais menina que mulher/…”; “Poema do adeus” (“Então eu fiz um bem/ Dos males que passei/ Fiz do amor uma saudade de você/ E nunca mais amei/ Deixei nos olhos seus/ Meu último olhar/ E ao bem do amor eu disse adeus…”); “Ri” (“Ri, podes rir, não faz mal/ Todo amor, afinal/ Deixa o peito sangrando/ Um coração chorando/ Alguém se lamentando/…”); “Lamento” (Ai, só você não vê/ Na minha vida falta você/ [Bis]//…”; “Murmúrio” (“Vai, nessa canção/ Meu último adeus/ Coração, sonha em vão/ Com os beijos teus//…”; “Recado” (“Você errou quando olhou pra mim/ Uma esperança fez nascer em mim/ Depois levou para longe de nós/ Seu olhar no um, a sua voz…”); “Cheiro de saudade” (“É aquele cheiro de saudade/ Que me traz você a cada instante/ Folhas de saudade, mortas pelo chão/ É o outono, enfim, no coração…”); “Devaneio” (“Era a saudade do passado/ Era o olhar em meu caminho/ Agora a sombra do passado/ É uma sombra de lado/ Eu não vivo sozinho…”); “Volta” (“Quando tu voltares/ Voltarás, eu adivinho/ Quando tu chegares/ Como as pombas ao ninho/…”) .

Luiz Antônio é, também, autor ou coautor de outras músicas inesquecíveis como: “Sassaricando” (“Sassassaricando/Todo mundo leva a vida no arame/Sassassaricando/ A viuva, o brotinho e a madame/ O velho, na porta da Colombo/ É um assombro/ Sassaricando//…”);  “Lata d’água” (“Lata d’água na cabeça/Lá vai Maria, lá vai Maria/Sobe o morro e não se cansa/ Pela mão leva criança/ Lá vai Maria//…”); “Sapato de pobre” (“Sapato de pobre é tamanco/ Almoço de pobre é café, é café/ Maltrata o corpo como que, porque/ O pobre vive de teimoso que é//…”); “Zé Marmita” (“Quatro horas da manhã/ Sai de casa o Zé Marmita/ Pendurado na porta dum trem/ Zé Marmita/ Zé Marmita vai e vem//..”); “Barracão” (“Ai, barracão/ Pendurado no morro/ E pedindo socorro/ À cidade a teus pés/ Ai, barracão/ Tua voz eu escuto/ Não te esqueço um minuto/ Porque sei que tu és/Barracão de zinco/ Tradição do meu país/ Barracão de zinco/ Pobretão infeliz…//”);  e  “Eu bebo, sim” (“Eu bebo sim!/Estou vivendo/ Tem gente que não bebe/ Está morrendo//..”), samba rock gravado por Elizeth Cardoso, em 1973.

Voltando à letra de “Eu e o rio”, quanta inspiração do compositor ao definir o rio como “caminho que anda”! O barulho da água como uma forma de o rio resmungar, “talvez uma dor”! E o que dizer da analogia criada entre processo de erosão causado pelas águas do rio, rasgando o “ventre” da terra, e o peito rasgado de dor do poeta ao se sentir solitário? Ou ainda, o que dizer do lirismo presente na imagem da flor se curvando e tocando as águas do rio como um beijo? Ao concluir o poema com o verso “Eu sou um mar que espera alguém que não corre pra mim”, o compositor estabelece, de forma magistral, o elo entre o eu poético e o curso do rio rumo ao mar.

Arte, pura arte. Travessia.

Ao caríssimo amigo e leitor Nereu Pereira dos Santos Neto todo o meu apreço.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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