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Benedito Antonio Luciano: Emboladas na memória

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 9 de julho de 2020 às 10:13

Vez por outra, me pego a lembrar de algumas canções que minha mãe cantava, enquanto realizava os afazeres domésticos. Dentre elas, emboladas divertidas e criativas gravadas pela dupla Jararaca e Ratinho e pelo pernambucano Manezinho Araújo.

Jararaca é o nome artístico atribuído a José Luís Rodrigues Calazans, nascido em Maceió – AL, em 29/09/1896, e falecido no Rio de Janeiro – RJ, em 9/10/1977. Ratinho é o codinome de Severino Rangel de Carvalho, nascido em Itabaiana – PB, em 13/04/1896, e falecido em Duque de Caxias – RJ, em 08/09/1972.

Manoel Pereira de Araújo, conhecido como Manezinho Araújo – O rei da embolada, nasceu na cidade de Cabo de Santo Agostinho – PE, em 27/9/1910, e faleceu em São Paulo – SP, em 23/5/1993. Além de cantor e compositor, ele foi jornalista e pintor.

De Jararaca e Ratinho lembro de duas músicas que ela cantava: “Espingarda…pá” (“Espingarda pá-pá-pá-pá/ Faca de ponta tá-tá-tá-tá”) e “Sapo no saco”, um trava-língua de lascar, com o seguinte refrão:  “E era o sapo dentro do saco/E o saco com o sapo dentro/E o sapo fazendo papo/ e o papo fazendo vento”.

Das músicas de Manezinho Araújo ela gostava de cantar: “O carreté do coroné”; “Pra onde vai valente? ”; e “Cuma é o nome dele? ”. 

Segundo o autor, a letra de “O carreté do coroné” reporta a entrada do automóvel nas terras dos engenhos de Pernambuco e acontecimentos correlatos. O refrão teria sido colhido do folclore: “E o carreté/Embolando pulo chão/E vou trabaiá/No caminhão do coroné”. Eu achava engraçado quando ela cantava a última estrofe: “E o carreté/Embolando pulo chão/O diabo é quem trabáia mais/No caminhão do coroné”.

A música “Pra onde vai valente? ” foi gravada por Manezinho Araújo em 1938, mas ela teria sido composta antes, quando ele se engajou nas tropas federais para combater a revolução paulista, em 1932. O refrão é o seguinte: “Pra onde vai valente?/ Vou pra linha de frente!”.

“Cuma é o nome dele?” foi gravada em 1956, embora tivesse sido composta antes da chegada de Manezinho no Rio de Janeiro, no mesmo ano em que compôs “Pra onde vai valente? ”. O refrão segue o mesmo esquema de pergunta e resposta: “Ôi, Cuma é o nome dele? / É Mané Fuloriano!”. 

Além dessas emboladas havia outra música que minha mãe gostava de cantar e eu gostava de ouvir. No caso, a música intitulada “Anedotas”, gravada por Almirante (Henrique Foréis Domingues, 1908-1980), em 1929, acompanhado do Bando de Tangarás. Segue a quarta estrofe da letra, tal qual ela cantava:

“Oi! Lá vinha pelo rio uma pedra boiando/ Em riba dessa pedra três navegador/ Um deles era cego, nada enxergando/ E outro não tinha braço, pois um trem cortou/ Mas deles o mais sem-vergonha era o terceiro/ Pois estava nuzinho, como Deus criou/ Em cima vagueando o cego num berreiro/ Ai! Olhando para o fundo: “Olha um tostão”, gritou/ Então ouvindo aquilo o que não tinha braços/Metendo a mão no rio esse níquel apanhou/ E o tal que estava nu tendo o tostão tomado/ Ai! Mais do que ligeirinho no bolso guardou”.

Ah! Quantas lembranças boas guardo de minha saudosa mãe, Francisca Fernandes Luciano, a quem dedico (in memoriam) esta crônica, como uma forma singela de expressar a minha gratidão por tudo de bom que ela me proporcionou.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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