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Benedito Antonio Luciano: Centenário de minha mãe

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 28 de julho de 2021 às 10:05

Nascida no município de Almino Afonso – RN, em 28 de julho de 1921, se minha mãe estivesse viva teria completado cem anos no dia 28 de julho de 2021. Filha de Francisca Maria da Conceição e Adelino Fernandes da Silva, ela foi registrada com o nome de Francisca Fernandes e ao casar com o meu pai, Pedro Antonio Luciano, passou a se chamar Francisca Fernandes Luciano.

Pouco sei sobre a infância dela e a respeito dos seus pais. Do meu avô sequer tenho uma fotografia e da minha avó, tenho apenas uma. Da minha ancestralidade materna sei que os seus avós paternos eram Joaquim Fernandes da Silva, natural de Brejo do Cruz-PB, e Luiza Maria da Conceição, sendo os avós maternos Joaquim Nogueira da Silva e Alvina Sabino do Espírito Santo, natural de Apodi-RN.

Por falta de documentos oficiais, só posso especular sobre a ancestralidade materna mais remota, partindo de algumas informações contidas no livro “Memorial de família” de autoria de João Bosco Fernandes e Antônio Fernandes Mousinho, publicado em 1994.

Segundo os autores do “Memorial de família”, os três primeiros membros da família Fernandes a se estabelecerem no Nordeste do Brasil eram de origem portuguesa. O primeiro, Antonio Fernandes Pimenta, na cidade de Mamanguape, na Paraíba; o segundo, Manoel Fernandes, entre Pau dos Ferros e Serra de Martins, no Rio Grande do Norte; e o terceiro, Francisco Fernandes, em Cachoeiro do Riacho do Sangue, no Ceará.

Assim, provavelmente, o ramo da família Fernandes do qual procede a minha mãe deve ser o de Manoel Fernandes, pois muitas vezes eu a ouvi falar a respeito de alguns parentes dela que moravam na Serra de Martins.

Conforme um relato memorial de minha mãe, premido pelos efeitos da seca que assolava o Sertão do Rio Grande do Norte, o pai dela partiu com destino à região amazônica, imaginando que lá, trabalhando como seringueiro, iria obter recursos financeiros para manter a família com dignidade, o que não aconteceu.

Segundo ela, ele voltou muito doente e morreu, deixando a minha avó na viuvez e na orfandade dez filhos, dando início a uma etapa dramática para essa família que não podendo permanecer unida começou a se desestruturar.

Um dos filhos mais velhos saiu para conseguir trabalho e nunca mais voltou nem deu notícias à família; uma das filhas morreu precocemente; outra foi adotada por uma família que morava em Natal-RN; e a minha avó morreu em condições financeiras precárias.

A minha mãe foi morar em João Pessoa-PB, onde trabalhou como empregada doméstica na casa da tradicional família Carneiro da Cunha, descendentes do Barão do Abiaí (Silvino Elvídio Carneiro da Cunha). Lá, foi bem acolhida e saiu para casar com o meu pai, em Coremas–PB.

Certamente, por ter morado na capital do Estado e ter convivido naquele ambiente familiar, onde se discutia assuntos de elevado nível, foi fundamental para o desenvolvimento intelectual da jovem Francisca Fernandes que, de oitiva, soube aproveitar essa oportunidade, adquirindo uma erudição diferenciada para quem, vindo do interior, não tivera acesso à educação formal.

Da união matrimonial entre os meus pais fui o quarto filho a nascer. Os três primeiros morreram prematuramente, assim como os nove irmãos que me sucederam. Nasci em Coremas, em 1954. O meu pai era funcionário do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) e trabalhou na construção dos Açudes Estevão Marinho/Mãe D’Água.

Em 1956, o meu pai foi transferido para Campina Grande – PB, onde trabalhou no Laboratório Central de Solos e Concreto do DNOCS, localizado em frente à Praça Felix Araújo.

Ao chegar em Campina Grande, o meu pai alugou uma casa na Rua Silva Jardim, no Bairro de José Pinheiro, onde moramos por algum tempo. Depois, para ficar mais próximo do local do trabalho, fomos morar na Rua Probo Câmara, no Bairro do Monte Santo. Lá morreu a minha irmã, Adeilde, aos oito meses de idade.

Do Bairro do Monte Santo saímos para morar no Bairro da Bela Vista, onde vivi parte da minha infância, adolescência e início da vida adulta e os meus pais viveram até o fim de suas vidas.

Todas as pessoas que conheceram a minha mãe lembram dela como uma pessoa cordial, acolhedora, fraternal, dotada de muitas habilidades, inteligência e uma memória fabulosa. Sabia de cor muitas estrofes dos clássicos da literatura de cordel. Gostava de música e de cinema. Seus cantores preferidos eram Orlando Silva e Dick Farney. Seus atores preferidos eram Humphrey Bogart e Errol Flynn.

No âmbito familiar ela era uma pessoa conciliadora; primava pela harmonia e mantinha um excelente relacionamento com seus irmãos, irmãs, sobrinhos, minha avó paterna e demais parentes de meu pai.

Por ter sido criado como filho único, desfrutei do convívio muito próximo de minha mãe e posso dizer que ela soube me educar para a vida e para a morte.

Muito cedo, ela me ensinou que eu deveria aprender a cuidar de mim. Para tanto, me ensinou a lavar e passar roupas, inclusive algumas peças de roupas de meu pai, as mais leves. Ensinou-me a assumir responsabilidades tais como: varrer a casa, pregar botões, cozinhar, fazer feira, manter a casa em ordem e me manter limpo.

Católica praticante, ela me ensinou a rezar e me preparou para a Primeira Comunhão. Com ela, seguindo a orientação que Cristo nos deixou, aprendi que devemos amar uns aos outros de forma incondicional, a perdoar e orar por nossos inimigos.

Além dos atributos citados, minha mãe era intuitiva e sábia. Enquanto me preparava para a vida ela me alertava: “Meu filho, eu posso morrer cedo e se isto acontecer, não sei se o seu pai lhe dará uma boa madrasta, por isto você deve saber tomar conta de si mesmo”.

De fato, ela morreu relativamente cedo, aos sessenta e dois anos, em 24/8/1983, vítima de choque séptico causado por infecção urinária, tendo sido sepultada no Cemitério Nossa Senhora do Carmo (Cemitério do Monte Santo), em Campina Grande.

Quando chegamos no hospital, depois de eu ter tomado as providências para o internamento, ao nos despedir ela olhou para mim e me dirigiu as últimas palavras: “Adeus meu filho, até o Dia do Juízo! ”.

Como cristão, acredito nesse reencontro.

Campina Grande, 28 de julho de 2021.
[email protected]

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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