Benedito Antonio Luciano: Cancão de Fogo e João Grilo

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 7 de maio de 2020 às 10:23

Na infância, escutei muitos relatos sobre causos atribuídos aos personagens Cancão de Fogo e João Grilo. Esses causos eram contados pela minha mãe e por pessoas de origem sertaneja, assim como meus pais.

Ainda criança, houve um tempo em que passei a ler folhetos para pessoas idosas, provenientes da zona rural as quais, apesar de não saberem ler, apreciavam ouvir as narrativas apresentadas nos “romances de cordel”, como eles assim denominavam. 

Certamente, por intermédio dessas leituras desenvolvi o interesse por esse tipo de literatura e, em particular pelas artimanhas, presepadas e proezas de Cancão de Fogo e João Grilo. 

Foi assim que comecei a comprar e a colecionar folhetos adquiridos na Feira da Prata e no Mercado Central de Campina Grande, contabilizando atualmente cerca de duzentos exemplares.

No tocante a Cancão de Fogo, o exemplar mais antigo da minha coleção é datado de 1957. Trata-se da obra de Minervino Francisco da Silva, intitulada “Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malazarte”. 

Nesse folheto, na segunda estrofe, composta por versos de sete sílabas, o personagem Cancão de Fogo é assim apresentado:

“A esse Cancão de Fogo

Todo o povo admirava

Pois ele enganava a todos

E ninguém o enganava;

Não tinha quem decifrasse

As charadas que ele dava. ”

Por sua vez, o perfil de Pedro Malazarte é exposto, de forma sucinta, na quarta estrofe:

“Nada tinha neste mundo

Que Pedro não arranjasse,

Não existia impossível

Que ele custoso achasse;

Enganava o mundo inteiro,

Sem achar quem lhe enganasse. ”

Ainda sobre Cancão de Fogo preservo os seguintes exemplares: “Vida e testamento de Cancão de Fogo”, autor Leandro Gomes de Barros; “A segunda vida de Cancão de Fogo”, autor Minervino Francisco da Silva; “O encontro de Cancão de Fogo com José do Telhado”, autor Rodolfo Coelho Cavalcante; e “O encontro de Cancão de Fogo com Vicente o rei dos ladrões”, autor Gerino Batista de Almeida.  

Com relação ao personagem João Grilo, tenho dois exemplares: “As proezas de João Grilo”, autor João Martins de Athayde; e “A morte, o enterro e o testamento de João Grilo”, autor Enéias Tavares dos Santos. 

Numa pesquisa feita na internet, encontrei a informação de que a primeira aparição de João Grilo na literatura de cordel brasileira teria ocorrido em um folheto de oito páginas, intitulado “Palhaçada de João Grilo”, escrito por João Ferreira de Lima, em 1932. 

Em “As proezas de João Grilo”, nas três primeiras estrofes, conforme a grafia original, o personagem é apresentado da seguinte forma:

“João Grilo foi um cristão

que nasceu antes do dia

criou-se sem formosura

mas tinha sabedoria 

e morreu depois da hora 

pelas artes que fazia

E nasceu de sete meses

chorou no “bucho” da mãe

quando ela pegou um gato 

ele gritou: não me arranhe 

não jogue neste animal 

que talvez você não ganhe

Na noite que João nasceu

houve um eclipse da lua

e detonou um vulcão 

que ainda continua

naquela noite correu 

um lobisomem na rua

Porém João Grilo criou-se

pequeno, magro e sambudo

as pernas tortas e finas 

a boca grande e beiçudo 

no sítio onde morava 

dava notícia de tudo”

A exemplo do que foi apresentado no “Encontro de Cancão de Fogo com Pedro Malazarte”, seria interessante imaginar a narrativa de um “Encontro de Cancão de Fogo com João Grilo”. Fica a sugestão.

Na obra intitulada “No reino da poesia sertaneja: Leandro Gomes de Barros”, ontologia organizada por Irani Medeiros, publicada pela Editora Universidade Federal da Paraíba, em 2002, o autor apresenta na página vinte e nove uma nota sobre a autoria dos folhetos. 

Nessa nota, ele lembra que os primeiros autores quase sempre vendiam os direitos de publicação de seus folhetos a outros poetas e editores que, por sua vez, passavam a assinar essas obras. Fiz este destaque por julgá-lo importante para quem se interessa a pesquisar sobre o tema.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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