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Benedito Antonio Luciano: As partes e o todo

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 19 de março de 2020 às 16:56

Foto: Leonardo Silva/ Paraibaonline

Recentemente, a minha esposa fez a leitura de um texto intitulado “Os cegos e o elefante” e perguntou qual seria a minha interpretação sobre o que fora lido.

De acordo com a fábula, seis cegos que não sabiam o que era um elefante foram convidados a descobrir, por meio do tato, o que seria o tal animal.

Depois de apalparem o animal, cada um deles emitiu a sua opinião:

– Puxa! Que animal esquisito! Disse aquele que havia apalpado as patas. Parece uma coluna coberta de pelos.

– Você está doido? Coluna que nada! Esse animal é um enorme abano, disse o que havia apalpado as orelhas.

– Que abano, colega! Você parece cego! Disse o que havia apalpado uma das presas do elefante. Isso não é um animal, é uma espada longa e quase me feriu!

– Nada de espada, nem de abano e nem de coluna. Trata-se de uma corda, eu até a puxei, disse o que apalpou a cauda.

– De jeito nenhum! Isso é uma serpente enorme que se enrola, disse o que tocou a tromba.

– Mas quanta invencionice! Então eu não vi bem? Isso é, de fato, uma grande montanha que se mexe, disse o outro. 

E ficaram os seis cegos a discutir, cada um querendo convencer os outros que a sua percepção era a correta. O tom da discussão foi crescendo, até que eles partiram para o enfrentamento físico. 

A certa altura, um dos cegos levou uma pancada na cabeça, as lentes dos seus óculos escuros se quebraram, ferindo seu olho e, por algum desses mistérios da vida, ele recuperou a visão daquele olho. E vendo, olhou, e olhando viu o elefante de forma completa.

Então, dirigindo-se aos outros buscou as melhores palavras que pudessem descrever o que vira, pois ele estava vendo e sabia como era o elefante. Porém, os que não viam não acreditaram nele e, juntos, começaram a rir e a debochar daquele que via.

Apresentado o resumo da fábula, segue a interpretação por mim formulada:

Numa primeira leitura, pode-se dizer que o texto “Os cegos e o elefante” é uma alegoria sobre a diversidade de opiniões sobre a mesma coisa e a dificuldade de consenso quando cada interlocutor está convencido de sua verdade, tentando sobrepô-la às dos outros, começando pela força do argumento e terminando pelo argumento da força, muitas vezes aos gritos.

Por outro lado, numa leitura mais reflexiva, poderemos inferir outra interpretação: a de que o todo é constituído das partes e depende da interação entre estas. Esta é a base da visão sistêmica, ou visão holística, como também é conhecida.

Adicionalmente, podemos tirar outra lição a partir do último parágrafo da fábula, no qual os que não viam começaram a rir e a debochar do que via. 

A lição é sobre a inutilidade de discutirmos com opinionados, fanáticos, maniqueístas e sectários, apresentando-lhes dados e argumentos consistentes, pois para esses sempre haverá uma frase que pode sintetizar essa discussão inócua: “Não me confunda com fatos, minha decisão está tomada”. 

Face ao exposto, parafraseando o meu amigo Zé Lacraia, poderia afirmar: 

– Em terra de cego quem tem um olho não é notado, nem que seja um ciclope.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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