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Benedito Antonio Luciano: A caldeira do inferno

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 19 de novembro de 2020 às 9:32

Quando ingressei no curso de graduação em Engenharia Elétrica, na antiga Escola Politécnica da UFPB, em 1973, os alunos não dispunham de calculadoras eletrônicas para realizar operações matemáticas, tais como: soma, subtração, multiplicação, divisão, raiz quadrada, logaritmos, potenciação e funções trigonométricas.

Na falta das calculadoras, essas operações eram realizadas por estudantes, professores e engenheiros de forma analógica, mediante o emprego de réguas de cálculo. A régua de cálculo foi inventada pelo matemático inglês William Oughtred, em 1622, tomando como base a tábua de logaritmos que fora criada por John Napier, em 1614.

Embora o preço de uma régua de cálculo simples não fosse elevado, eu não tinha recursos financeiros para adquiri-la. Então, nos primeiros anos do curso de graduação tive que usar uma tábua de logaritmos.

Ora, se os cálculos utilizando réguas de cálculo não forneciam valores exatos, imaginem os cálculos realizados por meio de tábuas de logaritmos, nos quais tínhamos que realizar várias operações de soma e subtração de números com várias casas decimais, como por exemplo: log (2) = 0,30102999666 e log (5) = 0,69897000433.

Atualmente, uma calculadora eletrônica fornece na tela quase imediatamente o valor de uma operação e o tempo para realizar a mesma operação usando uma régua de cálculo é maior e depende da habilidade do usuário. E se a operação for complexa, o tempo para se chegar ao resultado é muito maior usando a tábua de logaritmos.

Foi nesse contexto que na condição de aluno da disciplina Máquinas Térmicas, num curso de férias ministrado pelo professor José Calazans de Castro, em janeiro de 1975, nos vimos envolvidos em uma situação inusitada:

Numa das provas da citada disciplina, havia um problema no qual deveria ser calculada a temperatura de uma caldeira. Em si, o problema não era difícil, pois poderia ser resolvido mediante a aplicação direta de uma fórmula.

Depois de substituir os valores numéricos dos dados fornecidos no enunciado do problema na fórmula adequada, apliquei o logaritmo em ambos os membros da expressão e apliquei as propriedades logarítmicas para transformar o segundo membro em uma longa expressão de soma e subtração de números decimais obtidos na tábua de logaritmos, deixando como única incógnita, no primeiro membro, a variável temperatura.

Terminado o processo de cálculos, obtive um valor fisicamente absurdo para a temperatura. Ao perceber que havia cometido algum erro nas operações, me dirigi ao professor, mostrei para ele os cálculos realizados no verso da prova e disse:

– Professor, pelo valor que obtive, certamente cometi algum erro e não tenho mais tempo hábil para localizar onde foi. Pois, o valor da temperatura que calculei só pode ser a temperatura da caldeira do inferno, porque na terra não há material que suporte essa temperatura sem se fundir.

O professor Calazans riu muito com a minha presença de espírito em plena realização da prova e pediu que eu voltasse para a minha carteira, complementando com o seguinte comentário: embora você não tenha conseguido obter o valor correto da temperatura, vou conceder metade dos pontos relativos ao problema, porque você tem noção de ordem de grandeza e isto é muito importante para quem quer ser engenheiro.

Essa história me veio à memória quando recebi a notícia do falecimento do professor José Calazans, ocorrido em João Pessoa, no dia 31 de outubro de 2020.

Em face do ocorrido, enviei as minhas condolências à família do estimado Prof. José Calazans de Castro pela irreparável perda do ente querido.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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