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Benedito Antonio Luciano: A ave sai do ovo

Benedito Antonio Luciano. Publicado em 23 de dezembro de 2019 às 8:50

Pelos idos do decênio de 1970, li alguns livros do escritor alemão Hernann Hesse, dentre eles: “O lobo da estepe”, “Sidarta”, “Viagem ao Oriente”, “Narciso e Goldmund”, “Demian” e “O jogo das contas de vidro”.

Desses, a leitura que mais me marcou foi a do livro Demian, particularmente no tocante ao conteúdo do capítulo quinto, intitulado “A ave sai do ovo”.

Nesse capítulo, no quarto parágrafo, há uma transcrição de um bilhete que teria sido escrito pelo personagem Demian: “A ave sai do ovo.

O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas”.

A minha curiosidade sobre o significado da palavra Abraxas foi despertada por ser esse o título do segundo álbum de estúdio lançado pela banda Santana, em setembro de 1970. O primeiro foi lançado em 1969, no rastro do sucesso alcançado pela apresentação ao vivo no Festival Woodstock.

Estando nessa época muito envolvido com a produção de quadros baseados em temas surrealistas e místicos, não pude deixar de perceber esses elementos na capa ilustrativa do álbum Abraxas. Pesquisei e descobri que a capa do disco era uma reprodução do quadro “Annunciation”, pintado por Mati Klarwein, 1961.

Talvez, pelo fato de Abraxas ter ficado ecoando em minha memória, foi esta a palavra que escolhi para o título de uma exposição quadros de minha autoria ocorrida na Galeria do Departamento de Artes da UFPB (atual Unidade Acadêmica de Arte e Mídia da UFCG), evento ocorrido entre os dias 9 e 24 de novembro de 1988.

Nessa exposição, selecionei quadros elaborados a partir de diversas técnicas, estilos e temáticas, numa retrospectiva que cobria quatorze anos de trabalho, tendo a dualidade entre o profano e o sagrado como ponto-de-partida.

Essa dualidade, no dizer do Prof. Antonio Morais de Carvalho, autor do texto de apresentação da exposição, “provem da própria assunção das diferenças internas e externas; da tensão entre o real e o imaginário; de um processo estilístico em transformação”.

Mais adiante, Morais de Carvalho identificou no conjunto dos quadros “a angústia do sincretismo temático, que tenta conciliar e/ou relativizar o divino e o demoníaco, o catolicismo e as crenças afro-brasileiras; ou o divino e o humano; ou o absurdo e o real, propiciando, simultaneamente, leituras mais universais”.

Poucos sabem que neste ano de 2019, quando decidi lançar o livro intitulado “Entre prosas e versos” escolhi para ilustrar a capa o mesmo desenho que concebi para compor o cartaz de divulgação da exposição “Abraxas”: uma forma humana dentro de um ovo prestes a eclodir.

Nesse cartaz, elaborado com caneta nanquim sobre papel, dispus os seguintes elementos: o título da exposição; a imagem da figura humana dentro do ovo; o nome artístico do pintor (Bené); o período e o endereço do local da exposição.

Na capa de “Entre Prosas e Versos” optei por um estilo minimalista, destacando, de forma centralizada, o título do livro, o nome do autor e a forma humana dentro da casca do ovo, numa imagem ligeiramente alterada digitalmente.

No conteúdo do livro nenhuma alusão à Abraxas. Nada de ave, nada de ovo.

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Benedito Antonio Luciano

Professor doutor, titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

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