Fechar

Fechar

Barbaridades da Ditadura

Noaldo Ribeiro. Publicado em 14 de março de 2018.

A energia que emana de um regime de exceção, de uma ditadura mesmo, induz a prática de arbitrariedades não apenas no âmbito do Estado, mas no próprio seio de outras instituições ligadas a ele, especialmente no seu braço bélico: forças armadas e policiais.

Durante o período em que perdurou o regime militar no país (1964 – 1985) colecionou-se muitos exemplos de deformações de dadas corporações que configuram nítido rompimento com os padrões civilizacionais.

Para não passarmos além do Riachão – embora o fenômeno tenha sido nacional – fiquemos tão somente com o caso de Campina Grande – fotografia exemplar do medo e da barbárie na qual a “justiça” era exercida sem a necessidade da lei, sem pudor, substituída por estilhaços de rudimentares, porém fatais, espingardas de calibre 12.

Cabe, antes de continuar o tema, um breve parêntese. Vivia-se o ano de 1980. É curioso que quando nos reportamos a este período o fazemos com fortes tons de saudade. Atualmente é comum as pessoas falarem: Naquele tempo íamos ao Buracão, seguíamos para o CAVE, depois para o CEU e, em seguida, para o REFAVELA, muitas vezes a pé, sem o medo paralisante dos dias atuais.

Pois bem, em pleno céu de brigadeiro, no dia 12 de abril de 1980, o Diário da Borborema, trazia a matéria “Mão Branca Anuncia Listão de Bandidos Que Irão Morrer”, da lavra do competente jornalista Ronaldo Leite, autor do livro “Mão Branca: A Verdade Sobre o Carrasco”. Segue um pequeno trecho:

“O Mão Branca, Relações Públicas do Esquadrão da Morte, enviou carta às autoridades policiais de Campina Grande, datada de 08 do corrente, anunciando os nomes dos elementos que serão executados nos próximos dias nesta cidade pela sua equipe. Na relação estão incluídos advogados, policiais, criminosos, intrujões, marginais, estelionatários, pistoleiros, traficantes de droga, falsários, araques de polícia, frades etc. Idêntica carta foi, igualmente, enviada ao Diário da Borborema, onde o Relações Pública do Esquadrão da Morte solicita a publicação para que ninguém seja executado sem antes saber quem irá morrer…”.

Pra quem não acompanhou a história ou quem até mesmo imagine tratar-se de uma “pegadinha” é bom informar que a missiva acima não ficou apenas na ameaça. No mesmo dia 12, Paulo Roberto do Nascimento, vulgo “Beto Fuscão”, conhecido como exímio arrombador de carros, preparava-se para ir a um forró na SAB da Palmeira. Sua mãe, como todas as mães, usou o faro maternal, alertando-o: “Beto, meu filho, não vá prá esta essa festa. Eu estou com um pressentimento…”.

Beto não lhe deu ouvidos. Às 22 horas estava em frente à SAB, bem perto de um carrinho que vendia cigarros e bombons. Os “justiceiros” do MB o sequestraram, levando-o para adjacências do Amigão. Poucos minutos depois, o agente de polícia Geraldo Correia, em pleno plantão, recebeu o telefonema: “Já estamos na cidade. Tem um crioulo por trás do Estádio Amigão para vocês enterrarem”. Da lista, Beto foi o primeiro. Daí em diante, como numa cativante novela de TV, os campinenses aguardavam o próximo capítulo, sabendo de antemão que iriam se deparar com mais um corpo estendido no chão.

Enfim, a história é longa. O livro de Ronaldo Leite é raro, mas, pelo menos um exemplar encontra-se à disposição do público no Arquivo Municipal, sob a guarda de Walter Tavares, enciclopédia viva da história de Campina Grande.

Contudo, considero tudo isso, com a devida permissão de Seu Chico, uma “… página infeliz da nossa história”. O cérebro nervoso que cunhou a frase “Bandido bom é bandido morto”, se esqueceu do diálogo entre Deus e Noé. Disse o Todo Poderoso: “… sede fecundos, multiplicai-vos, povoai a terra e dominai-a”. Era de se supor que nesse processo de multiplicação muitos se tornam, seja lá porque motivos, bandidos.  Dessa estúpida frase reproduzem-se atrofias,  caso dos chamados “justiceiros” que se organizam sob a forma de milícias. Agora já não miram apenas batedores de carteira nem arrombadores de carro, mas negros, gays, mendigos, índios, travestis, transexuais e toda sorte de “homens ordinários”.

Mesmo triste o passado se foi. Virou museu, como diria os mestres de cultura popular quando o seu folguedo dá o último suspiro. Parece que o presente é muito pior. Século XXI, 2018, eleições presidenciais à vista e candidato propondo plataforma próxima à barbárie. Não, não vou citar o nome do dito cujo. Não quero ser acusado de fazer propaganda para figura tão medieval.

PS: Há três semanas que venho postando, sistematicamente, colunas de opinião no paraibaonline. Um amigo me cobrou um texto que tratasse sobre a polêmica se o impeachment da ex-presidente Dilma foi ou não golpe. Fiquei tentado em escrevê-lo, mas confesso que me faltou fôlego. No entanto, com a disciplina “O Golpe de 2016 e o Futuro da Democracia”, prestes a ser oferecida por várias universidades, inclusive pela nossa UEPB, terei, talvez, condições de me pronunciar.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube