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Campina Grande - PB

Ato político, gratidão popular

20/03/2017 às 12:03

Fonte: Da Redação

Por Jurani Clementino (*)

O que traz à Praça Presidente João Pessoa, em Monteiro – PB, sob o sol escaldante do meio dia, essa vaidosa senhora sexagenária, de cabelos brancos e batom retocado? Percebo que colocou seu melhor vestido e caprichou no penteado.  A mesma preocupação não teve o senhor de mesma idade que, aparentemente, pegou um chapéu de couro e uma camisa qualquer, fechou dois botões na parte de baixo e, de peito aberto e barba por fazer, seguiu na mesma direção. Ali, todos seguia a mesma direção. Mas o que passa na cabeça desse menino, de apenas três anos de idade, montado nos ombros do pai, vestido com uma camisa vermelha e protegido do sol por um boné com as indicações Lula 2018? Que desejos tem esse povo? Pelo que eles esperam amontoados naquele espaço ao céu aberto com temperatura mínima de quarenta graus?

Aos poucos vamos percebendo que não existe uma única resposta para todas estas perguntas.  Nem deveria. Mas parece que há um sentimento em comum a todas elas: gratidão. Aquela senhora, aquele senhor e a criança e seus pais vieram a praça no centro da cidade de Monteiro para ouvir as palavras de um senhor barbudo, de pouco mais de setenta anos de idade. Assim como elas, milhares de nordestinos fizeram o mesmo. Em caravanas, carros próprios, ônibus, moto e qualquer coisa que se movimentasse rumo ao Cariri. A cidade ficou entupida de gente. A praça foi tomada pelo povo. Árvores, postes, monumentos serviram de apoio para se ter a melhor visão do palanque. Uma onda vermelha cobriu aquela praça. Pouco mais de três da tarde a multidão vai à loucura com a chegada de Lula ao local do evento. Quase duas horas depois, após manifestações de apoio ao trabalho dele por parte de autoridades e artistas regionais e nacionais, um sonoro “Olê, Olê, Olê, Olá, Lu-La, Lu-La” ecoa pela praça e se espalha pelas ruas e bairros de Monteiro. O fenômeno estava ali. Diante dos olhos do povo. Aclamado pela multidão.

Antes desse ato, ele e sua comitiva haviam passado pelo rio que corta a cidade. Disse que não conseguiu mergulhar nas águas, trazidas do Velho Chico, porque era muita gente e os fotógrafos não deixara: “queriam uma imagem negativa de mim pra fazer a festa”. Um mito que se fazia gente a medida que misturava sua historia de vida com a historia de muitos ali. Lula queria ser o povo. Falou para eles como se um deles fosse. Durante seu discurso foi interrompido várias vezes pelo grito de “Olê, Olê, Olê, Olá, Lu-La, Lu-La”. Pregou uma mensagem de otimismo, mas demonstrou um certo receio diante do cenário político que estamos vivendo. Disse que não sabe se estaria vivo em 2018. O Lula não acha que vai morrer de morte natural até lá, mas mesmo assim não tem certeza do seu futuro.

Eu vi um senhor valente, com vontade de brigar nas urnas, mas temendo as armas do inimigo político. Não sei se todo mundo teve a mesma impressão. Acho que a grande maioria estava ali para agradecer. Para atribuir aos Governos Lula e Dilma (que também estava presente e foi muito cortejada pelas pessoas, recebeu presentes, distribuiu sorrisos e acenos à multidão) a responsabilidade pelo andamento das obras de transposição das águas do Rio São Francisco.

É clichê, mas me darei o direito de repetir: a Paraíba viveu ontem um momento histórico. Não pela chegada das águas que já estão em solo paraibano há alguns dias, mas pela retomada de uma esperança politica, depositada numa figura pública que aparece como opção para a retomada de um processo minimamente democrático. Não quero santificar um homem comum, com origens parecidas com a minha ou a sua, quero apenas dizer que esse homem precisa ser visto como uma liderança importante nesse país. Queria entender o que levou aquelas pessoas simples para aquela praça sob condições naturais tão adversas. Nunca saberei explicar. E acho bom. Só lamento quem já tem a resposta na ponta da língua. Ah, pra não esquecer: que acompanhei ontem, foi um ato político misturado com um sentimento de gratidão popular.

Campina grande – 20 de marco de 2017

(*) Jornalista, Escritor, Professor

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