Fechar

Fechar

As cinzas da revolução

Josemir Camilo. Publicado em 30 de novembro de 2016 às 8:49

Foto: Paraibaonline

Por Josemir Camilo (*)

Este parece ser o outono do patriarca (não o de Márquez): ao russo, transformaram em múmia, com que, agora, o regime putiniano não sabe que fazer; ao cubano, ‘ceniza que te quiero ceniza’. Parece uma boa lógica: em vez de múmia, cinzas. Com a morte física de Fidel (que procurou, monocraticamente, manter vinculado seu ‘caráter’ ao seu nome – pano pras mangas para psicanalistas, embora não tanto quando a mulheres e amores), as portas se abrem, ou já estavam abertas, porque parece que o irmão não sustentará, sozinho, a queda de braços. A morte de Fidel foi tão notícia que, para se escrever sobre, o único detalhe seria o de ter vivido lá, ou apenas visitado o país. Não é o meu caso, mas continua meu sonho, mais pela perspectiva de estudos comparados de História, dos engenhos e das ferrovias.

Outro caso é que, sempre que pude, escrevi sobre Cuba, como admirador de seu cinema e de sua literatura. Passei algum tempo preso em conceitos de esquerda, impedindo-me de ler Cabrera Infante e outros ‘infames’ do (ao) regime. Mas foi o cinema cubano que me foi abrindo o olhar e, mais ainda, minha vivência no exterior me colocou a par da produção cinematográfica e literária não fidelistas, afora a observação política e histórica da queda do Muro de Berlim, e da Perestroika. Parecia que Fidel dava marcha a ré, sem a gasolina soviética, radicalizava. Para quem conhece os amores e os humores da esquerda no Brasil, ter uma referência de regime do estrangeiro para se pautar, sempre guiou a linha partidária e as lutas entre facções de esquerda. Desde estudante de História na Católica, do Recife, que via grupos ‘irem’ para a China de Mao, ou para Enver Hoxha, da Albânia, ou para o ‘foquismo’ guerrilheiro de Fidel e Che Guevara; os mais tradicionais ficavam na continuação do que sobrou do stalinismo, via Kruschev, até Gorbachev, com a Glanost e a Perestroika.

Por tudo isto, fui gradando meus comentários, de defensor de medidas socialistas empregadas em Cuba para que ocorresse no Brasil, a desencanto, quando estudadas as duas realidades (quase continente e Ilha), até a admissão delas só para Cuba e se, assim, o povo a desejasse. Mas fica longe saber como o povo deseja, ou se se cala, se não se está por lá.

Outras críticas ao regime surgiram quando o filósofo, que eu admirava nos anos 70, Sartre, já tinha se desencantado com o regime de Fidel. Mesmo estudante, já discordava da teoria do foquismo que, se dera certo, com 80 homens numa ilha, não daria certo nem com um exército no ‘continente’ Brasil. História (não) se repete? Mantive-me à distância de militâncias, decidido só a estudar (in)diretamente Marx, mas sempre me lembrando que as esquerdas condenavam qualquer um que tentasse ler o velho, sem o Partido. Chamavam logo de revisionista, a ante porta para chamar a pessoa de reacionário e, depois, fascista. Li e tentei aplicar em minhas pesquisas historiográficas.

Como historiador, fui trocando certa militância pelo ceticismo, principalmente depois da queda do socialismo na União Soviética, sem nenhuma contrarrevolução, sem um tiro. Mas não um ceticismo cego, mas prático, exigindo estudos que comprovem como um país pode se autofinanciar em tudo e a todos, sem cair na entropia. Clamar por política socialista é uma coisa, agora estudar e encontrar uma forma de a economia socialista (num mundo inteiramente capitalista) dar certo, é outra. E minha descrença é exatamente, aqui. A Venezuela, o exemplo. Cuba, outro; a Coreia do Norte, outro. A China bagunçou. Comunismo com milionários, essa nem Marx preveria.

Bom, mas voltando a Cuba, de Bievenido Granda a Fidel Castro, esta se tornou o Outro para meio mundo de gente, intelectuais ou militantes. Além do povo cubano em Miami, a quem passei a prezar, depois que conheci alguns trabalhadores, de maneira rápida, quando lá estive para um congresso universitário. Vi cubano(a)s pobres também, comerciários, garçons, taxistas, e professores de universidades. A questão agora é como manter os ganhos sociais da Revolução Socialista (saúde e educação) com a abertura do mercado para o capitalismo de fora. Porque já existe uma gama de empresários do regime, os ex-líderes guerrilheiros, que comandam as estatais, como escreve o ex-guarda costa de Fidel, Juan Reinaldo Sanchez que, depois de se desconfiar dele e o prender, fugiu (para onde?) e escreveu o livro A Vida Secreta de Fidel.

Portanto, é neste melting pot de informações e vibrações que o mundo se debruça sobre a ilha rebelde, o antigo ‘quintal’ dos norte-americanos, desde sua independência da Espanha, que caiu na órbita do mercado dos Estados Unidos, a partir de 1891, chegando a ter tropas norte-americanas, em seu território (1899-1901) e, posteriormente, dois governadores ‘gringos’, postos pelos Estados Unidos. Parte dos cubanos deve ter esta visão de dependência; parte, de aspiração a ser capitalista. Será mantido o arrocho ditatorial revolucionário marxista-leninista, para se manter saúde e educação (e esta, só marxista) de graça? Para onde irá o regime, será uma socialdemocracia, com manutenção das políticas sociais alcançadas, ou será um novo Porto Rico, antigo irmão de destino, quando das independências destas duas colônias da Espanha?

(*) Professor, historiador

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

[email protected]

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube