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Arlindo Almeida: Um mundo de desigualdades

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 23 de outubro de 2019 às 12:12

É chocante observar um mundo em que, em 2018, mais de 800 milhões de pessoas passavam fome, segundo a ONU, enquanto os países gastaram no mesmo ano quase um trilhão e oitocentos bilhões de dólares em armamentos. Para promover a paz é muito difícil, mas para a guerra sobra dinheiro. Como diria o político e filósofo romano Cícero: “O Tempora, O Mores”. Que tempos os nossos!

Muitas tem sido as definições estatísticas que procuram mostrar a face das desigualdades – princípio cruel da fome. O assunto tem sido tema de muitas discussões e teorias que até hoje não trouxeram solução, ou não conseguiram abrir a porta do coração dos líderes das principais potências mundiais.

O indicador mais usado atualmente para medir as assimetrias no desenvolvimento e na distribuição da riqueza produzida no mundo, é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), consagrado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). É uma medida resumida do progresso a longo prazo em três dimensões básicas do desenvolvimento humano: renda, educação e saúde. O objetivo da criação do IDH foi o de oferecer um contraponto a outro indicador muito utilizado, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que considera apenas a dimensão econômica do desenvolvimento. Criado por Mahbub ul Haq com a colaboração do economista indiano Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1998, o IDH pretende ser uma medida geral e sintética que, apesar de ampliar a perspectiva sobre o desenvolvimento humano, não abrange nem esgota todos os aspectos de desenvolvimento.

São aproximadamente 180 países, classificados em quatro categorias: muito alto, alto, médio e baixo. A melhor nota é 1,00 (um) e a pior é 0 (zero).

É deprimente verificar que o Brasil, um dos países de maior potencial econômico do mundo, venha a ocupar a 79ª colocação no ranking adotado pelo PNUD, abaixo do Irã, e acompanhado de pobres países em todos os continentes.

Poucos números são suficientes para confirmar o que dizemos.

1º O rendimento médio do 1% mais rico da população é 33,8 vezes o rendimento dos 50% mais pobres.

2º A média dos rendimentos mensais do 1% da população que auferiam maiores ganhos era de R$ 27.744, o que corresponde a 33,8 vezes o rendimento dos 50% da população com os menores rendimentos (R$ 820). 

Como tem sido tratada a questão das desigualdades e da fome, por outros segmentos da sociedade, como o caso das academias de todo o mundo, em que cientistas de renome, com grande capacidade de influenciar pessoas e governos, realizando pesquisas, descobertas ou contribuições notáveis para a humanidade?

Em 1968 foi instituído, pelo Banco da Suécia,   o Prêmio de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, que, embora não seja, tem sido comumente conhecido como o Prêmio Nobel de Economia. Há 50 anos, em 1969, foi entregue a primeira láurea ao norueguês Ragnar Frisch e ao holandês Jan Tinbergen. Pois bem, nesses cinquenta anos, apenas dois prêmios que tratavam mais especificamente das desigualdades foram entregues: Em 1998 ao indiano Amartya Sem “por sua contribuição teórica fundamental para a economia do bem-estar, dentre outras coisas, nos países em desenvolvimento”. Agora em 2019, ao indiano-americano Abhijit Banerjee, à francesa-americana Esther Duflo e ao americano Michael Kremer “por sua abordagem experimental para aliviar a pobreza global. ”

Convenhamos, que para a magnitude do problema, a questão das desigualdades no mundo não tem sido tratada como merece. Por isso mesmo um sobrinho bisneto de Alfred Nobel chamou o prêmio como um “ campeonato de relações públicas para economistas”.

Felizmente a indiferença não é geral. Personalidades de muito peso batem, insistentemente,  nessa tecla, caso do Papa Paulo VI na  famosa encíclica  Populorum progressio (‘Do Progresso dos povos’),  divulgada  em 26 de março de 1967 .   A encíclica é dedicada à cooperação entre os povos e ao problema dos países em desenvolvimento. O texto denuncia o agravamento do desequilíbrio entre países ricos e pobres, critica o neocolonialismo e afirma o direito de todos os povos ao bem-estar. Propõe a criação um grande Fundo mundial, sustentado por uma parte da verba das despesas militares, para vir em auxílio dos mais deserdados.

O texto critica tanto o “liberalismo sem freio” que conduziu ao “imperialismo internacional do dinheiro”, como a “coletivização integral e a planificação arbitrária, que priva os homens da liberdade e dos direitos fundamentais da pessoa humana.”

“A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos. Quer dizer que a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem direito de reservar para seu uso exclusivo aquilo que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. Numa palavra, “o direito de propriedade nunca deve exercer-se em detrimento do bem comum, segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos”. Surgindo algum conflito “entre os direitos privados e adquiridos e as exigências comunitárias primordiais”, é ao poder público que pertence “resolvê-lo, com a participação ativa das pessoas e dos grupos sociais”. (Populorum Progressio).

O inspirador da encíclica e principal redator foi  Louis-Joseph Lebret, , (1897–1966), conhecido no Brasil como Padre  Lebret. Lebret foi um economista e religioso católico dominicano francês, criador do centro de pesquisas e ação econômica “Economia e Humanismo”, em 1942, e de um grande  número de associações para o desenvolvimento social em vários países do mundo,  dentre os quais o IRFED – Instituto Internacional de Pesquisa e Formação, Educação e Desenvolvimento (em Paris).

A humanidade tem que despertar, sem desânimo, para esse problema de consequências imprevisíveis.

Talvez não pareça exagero rememorar algumas palavras do genial Santo Agostinho.

“A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão, a coragem a mudá-las”.

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